Terça-feira, 17 de fevereiro de 2026. Vila Mariana, São Paulo. A sala de montagem da produtora Vidigal Filmes fica no quarto andar de um prédio comercial na Rua Vergueiro, atrás do Sesc Vila Mariana. Catorze pessoas trabalham aqui — onze são mulheres, oito são negras, duas têm cabelo natural, uma usa lenço de cabeça, três têm filho menor de dois anos. Adelaide Conceição, 52 anos, mora em Cidade Líder e vem três vezes por semana costurar figurino. O ônibus 5101 leva uma hora e quarenta. Adelaide é avó. A neta, Camila, 4 anos, vai pra creche perto da sala de montagem — Adelaide pediu pra produtora ajeitar o turno pra ela pegar a neta às 17h30.
A série O Outro Lado, criada e dirigida por Guilherme Silva, estreia segunda temporada na Netflix no dia 13 de março. Oito episódios. Filmados entre setembro de 2025 e janeiro de 2026 em três locações — Brasília, Salvador, São Paulo. Equipe de 67 pessoas — 38 mulheres, 41 pessoas negras, 14 pessoas LGBTQIA+. Orçamento de R$ 24 milhões, redução de 18% comparado à primeira temporada. A Netflix renovou a série depois de seis meses de incerteza. Renovou — mas reduziu de dez pra oito episódios.
"A primeira temporada foi prova de conceito. A segunda é prova de modelo de negócio", Guilherme me disse, na sala dele que dá pra Vergueiro. Trinta e nove anos, cabelo raspado, óculos preto, camiseta cinza de bolso. Ele bebeu água da garrafinha térmica que tem o nome do filho escrito em caneta. "Antes a gente provava que dava pra fazer série negra que dava audiência. Agora a gente prova que dá pra fazer série negra que dá audiência E é barata. Não é a mesma prova. É outra prova."
Em 2026, a Netflix Brasil encomendou 38 séries originais — 22% a menos que em 2024. A Prime pausou totalmente os originais brasileiros em outubro de 2025. O Globoplay virou o maior empregador da TV brasileira em janeiro, com 1.847 contratados em produção seriada. O HBO Max reduziu produção pra um terço. Nesse cenário, a renovação de O Outro Lado pra segunda temporada é vitória. Mas é vitória com cortes — corte de episódios, corte de cachê de figurinista assistente (Adelaide ganhou 12% menos do que recebeu na primeira temporada), corte de dia de gravação em locação externa em Salvador.
Adelaide costura figurino há 31 anos. Começou em 1995 fazendo terno de noivo numa alfaiataria no centro de Curitiba. Veio pra São Paulo em 2003 depois que o marido morreu. Trabalha em produção audiovisual desde 2014, quando uma amiga indicou ela pra Globo. Costurou figurino de O Outro Lado as duas temporadas — uniformes de motorista de aplicativo, vestido de neta de avó, blazer de delegado de polícia. "O Guilherme deixa eu escolher o tecido. Outros diretores escolhem. Ele pergunta", disse Adelaide. "É a primeira produção que me chama de Dona Adelaide. As outras me chamam de costureira." Ela ri. "Tem diferença. Tem muita diferença."
A presença negra atrás da câmera é a variável que determina se a série sobrevive. Não a presença em frente — essa já se mede em manchete. A presença atrás se mede em outra coisa: em quantas vezes a Adelaide pode escolher o tecido. Em quantas vezes a roteirista negra pode mandar mudar uma fala. Em quantas vezes a diretora de fotografia consegue iluminar a pele negra do ator principal sem precisar lavar de luz e perder a textura. O Outro Lado tem duas diretoras de episódio negras na segunda temporada — Lúcia Soares e Beatriz Fontes. Na primeira tinha uma só.
Mas a segunda temporada tem oito episódios. A primeira tinha dez. E essa é a equação que ninguém na produtora gosta de conversar em voz alta — porque dois episódios a menos é menos dia de trabalho pra Adelaide. É menos cachê pra Lúcia. É menos diária pra técnico de som de Salvador. Guilherme me disse, baixo, fechando a porta: "Renovação é boa. Mas renovação com corte é um modelo que vai matar produtora negra antes da gente conseguir comprar a própria casa." Ele não falou mais. Bebeu água. Voltou pra sala de montagem.
Em janeiro de 2026, Guilherme Silva foi entrevistado por podcast americano da indústria. Falou em inglês, sem tradutor. O podcast viralizou. Saiu matéria na Variety, no Hollywood Reporter, na The Wrap. A Amazon Studios procurou pra desenvolver série em coprodução. A HBO Max procurou também. Guilherme não respondeu nenhum dos dois imediatamente. Está esperando a temporada estrear no dia 13 de março. Se entrar bem nos números — top 5 do Brasil na primeira semana — ele assina com americano. Se não entrar, fica esperando a renovação que talvez não venha.
Adelaide vai pegar a Camila na creche às 17h30. Pega o ônibus 5101. Chega em casa em Cidade Líder às 19h. Faz arroz, feijão, ovo frito. Camila come no colo. Adelaide liga a televisão na Globo às 20h pra ver novela. Não assiste O Outro Lado. Diz que não tem Netflix em casa. "Pagar quarenta reais por mês? Não vou. Eu costuro a roupa, mas não vejo. Tudo bem. A neta vê depois, quando crescer." A neta tem 4 anos. O Outro Lado estreia primeira temporada em fevereiro de 2025 e segunda em março de 2026. Em 2034, Camila terá 12 anos. Talvez ela veja a série que a avó costurou. Talvez não. Talvez a Netflix nem exista mais. Adelaide não pensa nisso. Pensa em ter pago o INSS desse mês.