Gramado, a mostra paralela inédita
Gramado, quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, dez graus à tarde, neblina baixando no Vale dos Hortênsias. Pela primeira vez em quarenta e três anos, o Festival de Cinema de Gramado tem uma mostra negra rodando em paralelo à competição oficial. Não é cota. Não é prêmio reservado. É outra sala — o Centro Cultural Edel Trayna, três quarteirões antes do Palácio dos Festivais, capacidade 380 lugares, ingresso a R$ 12 contra os R$ 45 da sala oficial. Quatro longas e seis curtas em três dias. Eu fui. Avisei na redação que cobriria a paralela em vez da oficial, e a redação topou. Voltei pra escrever isso aqui.
A mostra se chama "Câmera Negra" e foi puxada por três pessoas — Camila Cornelsen, produtora gaúcha que trabalhou com Sandra Werneck em Sonhos Roubados (2009), Lázaro Ramos enquanto curador convidado, e Sabrina Fidalgo do coletivo Mostra Periférico Niterói. Eles propuseram à organização do Festival em 2024, ouviram não. Voltaram em 2025 com financiamento independente do Itaú Cultural mais Sicredi mais Caixa — totalizando R$ 460 mil em patrocínio fechado. A organização cedeu data e cedeu sala, não cedeu dinheiro. O Festival oficial fica com R$ 6,8 milhões de orçamento total, segundo o relatório da SEDAC-RS. A paralela ficou com 6,7% disso, captado por fora. Sala dos fundos com aquecedor próprio, enquanto a vitrine de loja de chocolate da rua Coberta segue com público nobre que voa de Salvador, Recife e Belém em ano de Kikito.
O melhor filme que vi na paralela foi Nego Bispo: o Mundo Inteiro, longa-documentário de Lia Vasconcelos. Cento e oito minutos sobre Antônio Bispo dos Santos, intelectual quilombola piauiense morto em 2023, autor de Colonização, Quilombos: Modos e Significações (2015). Lia rodou em Sítio União dos Pretos, Codó, em 2022 — entrevistas, ambientes, ele cozinhando, ele plantando, ele rindo com a tia de noventa e dois anos. Câmera Sony FX6, captação de som em campo aberto que respeita o silêncio entre frase e frase. Não tem narrador. Não tem letreiro explicativo. O filme exige o espectador que sabe ouvir baiana lenta. A sessão da quinta-feira teve 312 pessoas — sala quase cheia. Aplauso de cinco minutos no apagar das luzes. Lia subiu ao palco, falou rápido, agradeceu o sobrinho de Nego Bispo que estava na platéia, voltou pra trás. Foi a cena cinematográfica da semana — fora do filme.
Na oficial do Festival, naquela mesma quinta-feira, passou Pequeno Manual de Ascensão, longa de Fernando Belo com Leandro Hassum no papel principal, comédia de família classe média paulista emagrecendo. Sessão lotada. Tapete vermelho. Ingresso esgotado quatro horas antes. Pequeno Manual fez 230 mil espectadores em sala depois do Festival, segundo Ancine, e ganhou Melhor Filme no júri popular do Kikito. Nego Bispo: o Mundo Inteiro foi adquirido pelo Globoplay com janela de cento e oitenta dias — quer dizer, vai estrear no streaming em agosto, sem sala. O que separa a oficial da paralela em Gramado 2026 não é qualidade — não vou dizer isso porque seria injusto com Belo, que entrega o que se propõe. O que separa é trajetória: o filme de Hassum vai pra Cinemark, o de Lia Vasconcelos vai pra app de celular. A diferença começa na sala em que o filme estreia e termina no salário do diretor pra próximo longa.
Conversei com Lázaro Ramos no segundo dia, no café do Hotel Serrano. Cabelo grisalho mais alto, óculos novos, cansaço de quem dirigiu, atuou e curatorou no mesmo trimestre. "A paralela é primeiro passo", disse. "O segundo é a oficial chamar pra fora da cota. O terceiro é o cinema brasileiro deixar de chamar cota de cota. Já é o filme. Já é o mercado." Anotei. Lázaro lançou Lázaro — longa próprio dirigido — em janeiro: 314 salas, fechou em 76, fez 187 mil espectadores. Ele sabe a conta. Quando um cineasta negro me diz que cota não devia ser chamada de cota, fala do que viveu. Spike Lee falou parecido em 1989 sobre Do The Right Thing — vinte e sete anos depois ganhou Oscar honorário, não Direção. O tempo entre dizer e ser ouvido separa cineasta negro do convite oficial.
Saí de Gramado num sábado de manhã. Voltei dirigindo pelo trecho Caxias-Porto Alegre com a neblina ainda no para-brisas. Na sexta-feira à noite, na premiação oficial, Nego Bispo: o Mundo Inteiro não foi mencionado. Pequeno Manual de Ascensão levou três Kikitos — Filme, Direção, Ator. A paralela teve sua própria cerimônia, palco menor, prêmio sem dinheiro chamado "Marca Câmera Negra". Lia Vasconcelos levou o de Filme. Não havia jornalista da imprensa nacional na cerimônia. Eu estava lá porque era assunto desta cobertura. Os outros estavam no Palácio dos Festivais. A paralela existiu — e é fato. A pergunta cravada para 2027 é se ela vira oficial ou se some no orçamento que ano que vem não terá Sicredi, não terá Itaú Cultural, não terá ciclo DEI sobrando. Sala dos fundos com aquecedor próprio aquece — até a luz acabar.