Quarenta anos. Olodum fez quarenta em 2019. Ilê Aiyê fez cinquenta em 2024. Margareth Menezes foi ministra da Cultura do Lula entre 2023 e janeiro de 2026 — saiu pra disputar prefeitura de Salvador. Carlinhos Brown abriu o Carnaval de Salvador de 2026 com Timbalada reduzida a oito músicos. Daniela Mercury fez trinta anos de carreira solo. E ainda assim, em fevereiro de 2026, o axé não está no centro da conversa cultural brasileira. Está na periferia da própria periferia — sobrevive em Salvador, fora da Bahia desapareceu da rádio, vendeu trio pra empresa de evento, virou trilha de novela das seis. O axé que ainda toca em São Paulo é o axé que pagou ISS.
O que aconteceu? Aconteceu o que acontece com todo gênero brasileiro que vira moeda corrente — vira moeda. O axé saiu do trio em 1992 (Daniela cantando Swing da Cor no Carnaval do Rio, capa de revista, contrato com a Sony Music) e entrou no edital. Trinta anos depois, o trio ainda tá lá, mas o trio agora é evento corporativo de banco no Pelourinho. E o axé que importa, hoje, é o que ficou de fora do edital. Lazzo Matumbi canta no terreiro de candomblé do Pai Pote em Cosme de Farias num sábado e no Coro da Sé do Pelourinho num domingo de manhã — a mesma voz, o mesmo repertório partido em dois. Mateus Aleluia voltou em 2024 com Tincoãs no palco da Concha Acústica, setenta e seis anos, cantando como quem desconhece pressa. Aquele axé não vende ISS.
Margareth Menezes ministra cantando — essa é a imagem dos últimos três anos. Ela canta em posse, ela canta em comício, ela canta em entrega de ordem. Não é folclore. É contrato civil. O axé que Margareth representou no MinC foi o axé como dispositivo de gestão pública — Pontos de Cultura, Lei Aldir Blanc, Política Nacional Aldir Blanc 2025-2030. Saiu dali com sessenta e oito anos pra disputar a prefeitura. E a saída deixou um vácuo que o axé não sabe ocupar: quem vai falar pela música baiana negra no governo daqui pra frente? Caetano? Caetano é Caetano. Carlinhos? Carlinhos é Carlinhos. Não tem corpo coletivo. Tem indivíduos famosos.
Bezerra da Silva escreveu em 1988 o samba Malandro Não Vacila gravado no LP do mesmo nome pela RGE. Não é axé — é samba malandro. Mas a lição é axé: o gênero que sobrevive é o que tem laço com o lugar que o gerou. Bezerra morava no morro do Cantagalo, gravava no estúdio Reciprocal em Botafogo, vendia disco em loja de Madureira. Axé que sobrevive é axé que ainda tem barraco de Engenho Velho de Brotas como endereço. Russo Passapusso (BaianaSystem) descreveu numa entrevista pro Pavablog em 2024: o axé é trio de Salvador, é Margareth, é Olodum, é Carlinhos Brown e é Daniela. O que vem depois é axé com saudade. Saudade não vende ingresso de R$ 280 em São Paulo. Vende ingresso de R$ 30 em Cachoeira no Dois de Julho.
A década 2016-2026 do axé é a década do samba-reggae como contrato civil — Olodum tocou em casamento de filho de empresário em Trancoso, Ilê apresentou em formatura de classe média alta na Pituba, Timbalada virou tema musical de carro de luxo em campanha publicitária em 2023. Não é traição do gênero, é a sobrevivência dele. Olodum precisa cobrar R$ 80 mil de cachê pra manter quarenta percussionistas e a escola da Maciel. Ilê precisa pagar a sede do Curuzu. A pergunta nunca foi o gênero está se vendendo? — a pergunta sempre foi quem está comprando?, como vai pagar o samba-reggae que toca de graça em ensaio aberto da Maciel toda terça? Resposta: o casamento de Trancoso paga. E paga melhor do que o edital.
Mas tem o axé que vem. Não é axé de trio — é axé de estúdio. ÀTTØØXXÁ (Roberto Barreto de novo, Marcelo Maldonado, Russo Passapusso, Jorginho Gomes), seis anos, três discos, gravando em estúdio próprio em Salvador. Margareth Menezes pré-MinC gravou Áfricas com Letieres Leite em 2019, regência de cinco metais e quinze cordas — o disco era ensaio sinfônico de axé, ninguém viu, vendeu seis mil cópias. Letieres morreu em 2021. A música ficou. Larissa Luz, Mariene de Castro, Majur, Xênia França — quatro mulheres baianas em quatro discos lançados entre 2022 e 2025, cada uma gravando em estúdio que controla. Larissa em Brasília, Mariene no Cabula, Majur em Salvador e São Paulo, Xênia em Pinheiros. Nenhuma assinou contrato 360 com major. Esse axé — o que entra em sala de espetáculo, em conservatório, em ópera, em sarau de quintal em Brotas — é o axé que aprende a viver fora do trio. E é o axé que vai sobreviver à entrada de Margareth na prefeitura. O axé que sobrou pagou ISS. O axé que ficou no trio sumiu. O axé que vem está aprendendo a pagar o estúdio próprio — e o estúdio é o que dura.
ENSAIO — Argumento autoral costurando cultura, política e história.