Vinte enredos. Sessenta e três anos. Esse é o desenho da linhagem negra na Sapucaí desde 1963, quando a Padre Miguel entrou no Grupo Especial com Guerra dos Mascates, samba assinado por Aluísio Machado e Marinho da Padre Miguel, e fez o que ninguém tinha feito antes — entregou enredo histórico-político em vez de fantasia decorativa, em vez de samba de exaltação à cidade-maravilhosa, em vez de carnaval que finge não saber em que país está acontecendo. Guerra dos Mascates contou a revolta de Olinda contra Recife em 1710 — pequeno comércio negro recifense contra grande comércio português olindense. Não fechou em conciliação. Não fechou em conciliação porque a história não fechou em conciliação. A Padre Miguel inventou samba-enredo histórico antes do Brasil saber que precisava.

Fernando Pamplona é o personagem que faltava na conta. Pamplona era branco, filho de família tradicional carioca, professor de figurino na Escola Nacional de Belas Artes, e em 1965, com cinco alunos negros do Salgueiro chegando à ENBA pra aprender desenho de fantasia, virou de carnavalesco amador pra revolucionário do Carnaval do Rio. Pamplona assinou o enredo de 1965 do Salgueiro — História do Brasil pelo Mestre-Sala — e em 1966 entregou Chico Rei, samba de Geraldo Babão e Beto Sem Braço, primeiro enredo de Carnaval do Rio que contou o negro como sujeito da própria história. Antes do Salgueiro de 1966, o negro entrava no Carnaval como mão-de-obra do desfile. Depois, virou personagem da peça. Pamplona morreu em 2013 sem ver Leandro Vieira. Leandro Vieira é direta consequência da aula de Pamplona em 1965 com cinco alunos negros do Salgueiro.

Cada samba-enredo é um ato. A Sapucaí é teatro de oitenta minutos. Setenta e cinco mil pessoas. Não tem segunda chance. Joãosinho Trinta entrou na Beija-Flor em 1974 e ficou até 1979. Em 1976 assinou Sonhar com Rei Dá Leão — enredo sobre o sonho como direito. Em 1978, O Que É, O Que É? — enredo sobre a desigualdade brasileira em forma de quiz infantil. Trinta era nordestino do Maranhão, filho de barbeiro, formado em cenografia pelo Serviço Nacional de Teatro nos anos 60. Conhecia Abdias do Nascimento. Conhecia Lia de Itamaracá. Conhecia Solano Trindade. Trinta morreu em 2011, aos setenta e oito. Deixou uma frase que virou tema de tese — o povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual. Era frase de carnavalesco. Era também ensaio sobre estética popular. Trinta entendia que a Sapucaí é palco de povo. Não é Belas Artes. É melhor que Belas Artes.

A Beija-Flor de Joãosinho Trinta de 1989 entregou Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia — enredo sobre o lixo de Nilópolis, sobre os catadores, sobre quem move a cidade nas margens. A escola pretendia entrar com Cristo mendigo na avenida. Foi proibida pelo Tribunal Eclesiástico do Rio. Trinta cobriu o Cristo com lona preta e escreveu na lona: mesmo proibido, olhai por nós. Ganhou capa de revista. Ganhou prêmio. Ganhou o ano. A escola foi a quarta colocada. Não importa. O enredo virou cânone. A peça de Joãosinho Trinta é a peça que provou que carnavalesco pode ser dramaturgo. E que Sapucaí é palco com setenta e cinco mil atores.

A Mangueira de Leandro Vieira em 2019 entregou História pra Ninar Gente Grande (Manu da Cuíca, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Deivid Domênico, Danilo Firmino). O samba abre — Brasil, meu nego, deixa eu te contar / a história que a história não conta. Em duas estrofes, refez o livro didático: Dandara, Luísa Mahin, Marielle Franco. A escola contou cinco séculos em treze minutos de desfile. Foi campeã. Marília Garcia escreveu na Folha em fevereiro de 2019 que aquele samba era literatura — e era. Conceição Evaristo publicou Olhos d'Água pela Pallas em 2014. Carolina Maria de Jesus publicou Quarto de Despejo pela Francisco Alves em 1960. Essas três datas — 1960, 2014, 2019 — desenham a linha. Carolina escreveu o barraco. Conceição escreveu o quarto. A Mangueira escreveu o quintal todo do Brasil.

A Vila Isabel de 1988, Kizomba — Festa da Raça, com Martinho da Vila assinando samba ao lado de Rodolpho de Souza e Jonas, é o enredo do centenário da Abolição que recusou a comemoração. Martinho cantou — valeu Zumbi, o grito forte dos Palmares / que correu terras, céus e mares, influenciando a abolição. A Vila ganhou o ano. Foi a primeira escola a contar 13 de maio como data que não fechou. A Mangueira em 2008, A Festa do Saci, e em 2016, Maria Bethânia — A Menina dos Olhos de Oyá, fizeram trabalho contínuo de Sambacanta Cidadão. A Salgueiro em 2017, A Divina Comédia do Carnaval, virou ensaio sobre o próprio gênero. A Imperatriz em 2025, Mãe Stella, fechou o ciclo do candomblé como casa fundacional. Vinte enredos. Vinte escolas. Vinte anos pra fazer mais vinte. Quem escreve o próximo?

ENSAIO — Argumento autoral costurando cultura, política e história.