Cinco escolas. Quatro enredos negros. É o que o Grupo Especial do Rio entregou em fevereiro de 2026 — Portela com Aleijadinho — Mãos que Esculpiram a Liberdade (Antônio Nóbrega como interventor de pesquisa, samba assinado por Samir Trindade, Marcelo Motta e Diogo Rosa), Mangueira com Quilombo dos Palmares — A Insurreição que Não Parou em 1695 (Leandro Vieira como diretor de carnaval desde 2019, samba de Manu da Cuíca, Tomaz Miranda e Marcio Bola), Grande Rio com Pixinguinha — O Som que Costurou o Brasil (Wilsinho Alves no carnavalesco, samba de Wander Pires), e Imperatriz Leopoldinense com Mãe Stella de Oxóssi — A Casa que Não Caiu (Leonardo Bora e Rosa Magalhães em assinatura conjunta). A Beija-Flor entrou com tema afetivo branco — Anos Dourados, Anos Trocados — e ficou sozinha no terreno do entretenimento neutro. Quatro escolas escolheram o negro como pauta. Uma escolheu o algodão-doce.

A Sapucaí é palco aberto. O Curuzu é sala fechada. As duas estruturas trabalharam em paralelo em fevereiro de 2026 — o Ilê Aiyê (fundado em 1974 por Antônio Carlos dos Santos Vovô e Apolônio de Jesus, sede até hoje na Liberdade, no Curuzu Engenho Velho de Brotas em Salvador) saiu com o tema Mulheres da Casa Grande — As Que Pariram o Brasil na noite de sábado de Carnaval, vinte e oito de fevereiro, microfonia do trio aberto na Avenida Reitor Miguel Calmon, mais de quinze mil pessoas acompanhando até Periperi. Mesma semana. Cinco mil quilômetros de diferença geográfica entre Sapucaí e Curuzu. Mesma pauta: a história que o livro didático não contou. Diferença de público: uma platéia pagou ingresso médio de R$ 280 no Setor Especial. Outra acompanhou o trio andando ao lado.

Leandro Vieira voltou pra Mangueira em 2019 com História pra Ninar Gente Grande e ganhou o título. Em 2024 saiu da Mangueira após divergência com o presidente Chiquinho da Mangueira sobre orçamento do barracão (cinco milhões de reais para a montagem de 2025, valor recusado pela escola — Vieira queria oito). Voltou em outubro de 2025. Quilombo dos Palmares foi a resposta. Vieira contou numa entrevista pro O Globo em janeiro: é o mesmo Aleijadinho que a Portela esculpiu — só que escultor é Zumbi. Vieira tem quarenta e dois anos. Carnavalesco há onze. Mora em Madureira ainda hoje. Desenha carro alegórico na contracapa do caderno do filho mais velho — caderno comum de espiral, quadriculado, marca Tilibra. O filho tem oito anos. Já me cobra o desenho do carro de abre-alas de 2027, contou Vieira. Eu não disse nada ainda. Vai vir do Quilombo o tema do ano que vem? Ou vai vir de outro lugar?

Cada enredo é uma peça curta de oitenta minutos. Tem prólogo, três atos, virada, coda. A Portela em fevereiro entregou Aleijadinho como o homem que esculpiu a liberdade na pedra-sabão de Congonhas em 1796. A Mangueira respondeu com a pergunta que faltava na Portela — quem fez a pedra. Aleijadinho era filho de português com escrava africana. Esculpia com os dedos doentes amarrados ao formão. A Mangueira contou Zumbi do quilombo de Palmares matando branco em 1694 pra que Aleijadinho pudesse esculpir trinta anos depois. As duas escolas tocaram o mesmo tema. Saiu peça em duo. A Portela contou Aleijadinho. A Mangueira contou quem fez a pedra. As duas tinham razão. As duas precisaram uma da outra.

A Grande Rio entregou Pixinguinha. Wilsinho Alves contou Pixinguinha que cresceu em Piedade no início do século XX, filho de pai músico, neto de escrava, que aprendeu choro com a tia Albertina antes de tocar com Donga e João da Baiana. O samba abre — Vinha do violão de uma tia / o som do Brasil que ainda não tinha nome. Wander Pires assinou a melodia. Pires tem cinquenta e cinco anos, cantou na Salgueiro entre 1996 e 2014, voltou pra Grande Rio em 2018, viu a escola virar campeã em 2022 com Fala Que Eu Te Escuto (Dr. Pailim, Doutora dos Pobres). A linha melódica de Pixinguinha não tem coda — termina suspensa. Foi proposital. Pires disse pra LeoMagalhães da TV Globo em janeiro: não fecha porque Pixinguinha não fechou. Pixinguinha morreu em 1973 num boteco da Lapa pedindo chope. Não tem coda nessa história.

A Imperatriz entregou Mãe Stella de Oxóssi. Rosa Magalhães morreu em 2024. Leonardo Bora assinou sozinho com a equipe de pesquisa de Magalhães. Mãe Stella foi iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá em Salvador entre 1976 e 2018 — quarenta e dois anos. Morreu aos noventa e três. O enredo é a casa de candomblé como casa de fundação do Brasil — não como folclore. A Sapucaí cantou em fevereiro: é casa que não cai, é raiz que não rasga / é fundo que sustenta a feira inteira em Salvador. A casa de Mãe Stella ainda existe. Iyalorixá Maria Stella de Azevedo Santos foi sucedida em 2018 por Iyá Conceição. A Imperatriz não precisou inventar — só precisou levantar o pé da Marquês de Sapucaí pra mostrar pro Brasil que a casa não caiu mesmo. Levantou. Ganhou o ano. A Beija-Flor com Anos Dourados, Anos Trocados ficou em sétimo. O release não disse. A quadra cantou.

REPORTAGEM — Apuração de campo com fontes nomeadas, números verificáveis e cena observada.