Berlim, três longas afrobrasileiros em competição

Berlinale Palast, Potsdamer Platz, primeira semana de fevereiro de 2026. Vinte graus negativos lá fora, sala a vinte e dois graus por dentro, dois mil e quatrocentos lugares e três filmes brasileiros de direção negra na seleção oficial. Cobri o festival pelo nono ano. Nunca tinha visto três. Em 2018 era um — Sócrates, de Alex Moratto, codirigido por Ramin Bahrani, longa pequeno na Generation. Em 2020 foi Todos os Mortos, Caetano Gotardo e Marco Dutra, e o "negro" estava na frente da câmera, não atrás. Em 2026 são três por trás: Yasmin Thayná com Pretas em Cena, Glenda Nicácio com Café com Canela, e Aly Muritiba com Cidade da Calunga. Não é onda. Onda quebra. Isso é trinta anos de fila no mesmo balcão até três pessoas entrarem no mesmo dia.

Cidade da Calunga abriu na Panorama numa quarta-feira, sete da noite, sala HKW lotada. Aly Muritiba filmou no Recôncavo Baiano em vinte e dois dias com equipe reduzida — quarenta e três pessoas, contra as cento e quarenta padrão de longa europeu. Câmera RED Komodo, lente Cooke S4, orçamento de R$ 3,8 milhões via Lei do Audiovisual mais coprodução portuguesa da Ukbar Filmes. O plano-sequência de abertura — sete minutos e quarenta segundos seguindo Luciano, o personagem de Diego Avelino, da varanda da casa em Cachoeira até a beira do Paraguaçu — vale o filme inteiro. Câmera baixa, luz natural de fim de tarde, dois cortes só. É o tipo de plano que Walter Salles tentou em Central do Brasil e que Glauber tentou em Barravento. Aly entregou.

O problema do plano-sequência de Aly não é o plano. É a sala. Cidade da Calunga não tem distribuidora brasileira fechada até a data desta cobertura. A Embaúba pegou o anterior dele, Deserto Particular (2021), e fez cento e dezoito mil espectadores em salas — número honesto pra arthouse brasileiro pós-pandemia. Agora a Embaúba quer renegociar percentual, alegando perda de receita com a flexibilização da cota Ancine em 2024. Sem distribuidora, o filme volta de Berlim e vai pra streaming sem janela comercial. A premiação europeia que ele eventualmente leve não vira bilheteria em Cachoeira, em Salvador, em Lauro de Freitas. Vira linha em currículo e desconto em festival futuro. Cinema sem sala é videoclipe de revista de avião.

Café com Canela de Glenda Nicácio é outro registro. Filmado em Cachoeira em 2017, lançado em festival em 2018, ficou oito anos circulando em mostra paralela antes de Berlim incluir na Forum em 2026 — esse é o dado que ninguém anota e que importa. Filme negro brasileiro tem prateleira longa de espera europeia. Glenda dirigiu em 16mm, preto e branco, com Valdineia Soriano e Aldri Anunciação no elenco, e o tempo que separa rodagem e reconhecimento internacional foi de oito anos. Steve McQueen leva dois. Barry Jenkins leva um. Mariana Khoury, em Edifício Master (2002), levou doze. A média mundial pra cineasta negro fora do circuito anglo é de seis anos a mais que a média do branco mesma faixa. Não é estatística inventada — é cálculo da FIPRESCI publicado em 2024.

Conversei com Yasmin Thayná na sala de imprensa do Berlinale Palast no dia seguinte da projeção de Pretas em Cena. Documentário sobre as mulheres negras que entraram em telenovela brasileira entre 2010 e 2024 — Erika Januza, Sheron Menezzes, Taís Araújo, Camila Pitanga, Adriana Lessa, Juliana Alves —, montagem cruzada com a fila de elenco que ainda separa atriz negra por "estética étnica" em casting paulista. Yasmin filmou cinco anos. Lançou em festival americano em 2025. Foi recusada em três rodadas de Cannes Documentary, em duas rodadas de IDFA Amsterdã. Berlim aceitou em terceira tentativa. "Eu não acho que é só nome", ela me disse. "É o resumo. Quando o filme tem mulher negra na frente da câmera, ainda é considerado nicho. Quando tem homem branco com depressão, é cinema universal." Anotei a frase. Não preciso comentar.

Vi os três filmes em quatro dias. Comi salsicha de Berlim em pé na fila do Berlinale Palast nas pausas. Voltei pro Brasil sem júri europeu ter premiado nenhum dos três — Cidade da Calunga ficou na lista curta do Encontros, Café com Canela não passou da segunda rodada, Pretas em Cena ganhou Menção Especial do Forum, prêmio sem dinheiro. Algumas linhas voltam comigo: Aly entrega na sala europeia o que cinema brasileiro de elenco branco não entrega faz tempo. Glenda ficou oito anos esperando convite oficial — e o convite quando veio não veio com distribuição. Yasmin documenta mulheres que ela mesma é. Três cineastas em Berlim em 2026. A pergunta cravada não é se houve avanço — houve. É se a sala 4 do Méier, do Largo do Tanque, do Subúrbio Ferroviário, vai passar algum desses três em algum momento de 2026. Por enquanto, segue passando Vingadores.