Contexto e Leitura
O balanço de um semestre de governo se lê em duas colunas que quase nunca se olham. Numa está a aprovação: Lula fechou junho com 48% de aprovação e 49% de reprovação no Datafolha, pesquisa presencial com 2.004 entrevistados nos dias 17 e 18, o melhor patamar do presidente depois de meses estacionado nos 45%. Na outra coluna está o rapaz preto de dezenove anos que, no mesmo semestre, carregou 2,7 vezes mais chance de ser assassinado do que o vizinho branco da mesma esquina. As duas colunas fecham no mesmo país. Não fecham na mesma conta.
A coluna das entregas tem números que se pode tocar. O salário mínimo subiu para R$ 1.621 em janeiro. O Pé-de-Meia, a poupança do ensino médio criada pela Lei 14.818, seguiu depositando R$ 200 por mês na conta de estudantes da rede pública inscritos no CadÚnico, com incentivos que, somados matrícula, frequência, conclusão e Enem, podem chegar a R$ 9.200 ao longo dos três anos. São valores desenhados para segurar na escola o filho da faxineira de Fortaleza, o mesmo que, se largar os estudos, some primeiro das estatísticas de matrícula e depois de tudo. Um governo mede o acerto dessas políticas pela evasão que evitou. O problema é o que ele não mediu.
Porque a política que deposita R$ 200 na conta do menino não conversa com a política que deveria mantê-lo vivo para gastá-los. O Atlas da Violência 2026, publicado em maio pelo Ipea com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, contou 32.820 pessoas negras assassinadas em 2024, 77% de todos os homicídios do ano. É quase noventa por dia. A taxa entre negros foi de 27,3 mortes por 100 mil habitantes; entre não negros, 10,1. A distância entre as duas, 170,3%, não é ruído estatístico. É a medida exata de quem o Estado protege e quem ele deixa na fila.
A mesma caneta que assinou o piso salarial e a bolsa do ensino médio não assinou uma meta para o número que decide se o menino chega vivo ao fim do terceiro ano.
E esse número é masculino antes de qualquer coisa. Homem é a esmagadora maioria das vítimas jovens de homicídio no Brasil, algo que o Atlas repete edição após edição sem que se torne pauta de gabinete. A morte precoce do homem negro periférico é tão previsível que virou paisagem: espera-se dele que morra cedo, e a espera organiza a cidade. A escola pública que o Pé-de-Meia tenta segurar fica no mesmo bairro onde a viatura entra atirando. O salário mínimo que subiu compra o pão do mês, não compra a garantia de que ele volta do trabalho. Enquanto a violência letal caiu 38,9% entre não negros na última década, entre negros a queda foi de 21,7%. O Brasil melhorou para uns quase duas vezes mais rápido do que para outros, e chamou isso de progresso geral.
O segundo semestre chega com eleição municipal em outubro e um presidente em recuperação nas pesquisas. Vai haver palanque para o salário mínimo, para a poupança do ensino médio, para o PIB. Não vai faltar coluna de entregas. O que falta, e faltou o semestre inteiro, é a linha em que o Estado assume como meta própria, mensurável, cobrável, o número de rapazes pretos que ele deixou de enterrar. Sem essa linha, o balanço fecha no azul e o cemitério continua no vermelho. A distância entre a aprovação de 48% e a taxa de 27,3 se mede num único lugar: no velório de quinta à tarde, com a mãe segurando o retrato do menino que ia fazer vinte.