Contexto e Leitura
Em Campina Grande, o forró começa antes do anoitecer. Na Avenida Floriano Peixoto, Edson, 52, dono de barraca de milho verde, abriu o fogão às quatro da tarde como faz desde os dezessete anos. Não há nada de folclórico nisso: é trabalho, é junho, é a única semana em que ele fatura o equivalente a dois meses comuns. O São João do Nordeste não é só festa. É a coluna vertebral de uma economia informal que sustenta cidades inteiras e que, décadas depois de virar produto turístico, ainda pulsa pelo que sempre foi: celebração coletiva com raízes na religiosidade, na fartura do campo e na musicalidade negra e indígena do interior.
O Maior São João do Mundo fechou 2026 com 3,45 milhões de pessoas passando pelo Parque do Povo, alta de 6,7% sobre os 3,2 milhões do ano anterior. A prefeitura injetou mais de R$ 800 milhões na economia local, com o volume financeiro subindo 15,9% ante 2025. O gasto do turista cresceu 13,1%; o do campinense, 19%. É o morador, não o visitante, quem está sustentando o crescimento da festa ano após ano.
Caruaru recebeu mais de quatro milhões de visitantes ao longo dos 72 dias de programação, com mais de 1.500 atrações espalhadas pelos polos da cidade. A movimentação chegou a R$ 805 milhões, alta de 9% sobre 2025, com gasto médio de R$ 201,30 por visitante. No Alto do Moura, reduto da cerâmica de Mestre Vitalino, passaram mais de 400 mil pessoas. Mas 77% dos artistas escalados na programação eram de Caruaru: quem enche o palco, na maioria das vezes, é quem já morava ali antes da festa virar vitrine nacional.
Mossoró chega à 29ª edição do Cidade Junina com um formato que recusa o centro único: a programação se espalha por polos como a Cidadela, o Memorial da Resistência e o Teatro Municipal, e a pesquisa da prefeitura, com 5.137 entrevistados, registrou aprovação acima de 90%. É um desenho deliberado, ainda que pouco falado nos roteiros turísticos: descentralizar a festa é também decidir por onde o dinheiro e a visibilidade vão passar, e que bairro fica de fora quando a programação se concentra num único point.
Nos palcos principais das três cidades, o forró eletrônico domina a grade e os cachês milionários. Nas calçadas e nos salões comunitários, o xote e o baião resistem tocados por trios de sanfona, zabumba e triângulo. A divisão não é acidental: o palco grande é para quem pode pagar ingresso e patrocínio; o forró de chão é para quem mora a quinze quarteirões do centro. Homens negros do interior tocam nesses espaços há gerações, sem contrato de gravadora e sem nome na testeira do trio elétrico.
A quadrilha junina carrega essa mesma tensão de origem. Nasceu nos salões europeus do século XIX e foi reapropriada pelas comunidades negras e mestiças do interior nordestino, que transformaram um baile de corte em performance coletiva de bairro. O Brasil soma hoje mais de cinco mil grupos de quadrilha cadastrados em 24 estados, com cerca de 500 mil quadrilheiros ativos, segundo a Confederação Nacional de Quadrilhas Juninas. É um dos maiores circuitos de cultura popular do país, sustentado majoritariamente por gente jovem e negra do interior, e que raramente aparece como notícia de economia criativa.
A festa é real, é grande, e segue crescendo dois dígitos ao ano. O que não cresce na mesma proporção é a fatia de quem abre o fogão às quatro da tarde.
O Ministério do Turismo projetou R$ 2,4 bilhões para o ciclo junino em todo o Nordeste em 2026. Pernambuco, sozinho, fechou o próprio ciclo em R$ 1,46 bilhão, alta de 22% sobre o R$ 1,2 bilhão de 2025, segundo levantamento da Fecomércio-PE. São números de recorde, anunciados em coletiva, comemorados em nota oficial. O que essas notas não medem é quanto desse total chega ao barraqueiro, à bordadeira e ao sanfoneiro que não têm assessoria de imprensa, só a barraca aberta desde as quatro da tarde.