Contexto e Leitura
A 5ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial fechou as portas do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, no dia 19 de setembro de 2025, depois de cinco dias que carregavam o peso de um vazio de sete anos. Foi a primeira CONAPIR desde 2018. No intervalo, o país teve um governo que desidratou os espaços de participação, e a conferência simplesmente não aconteceu. O tema da retomada foi reparação e justiça racial. Passaram por lá cerca de duas mil pessoas por dia, o movimento negro e a sociedade civil redigiram mais de 500 propostas, Lula abriu os trabalhos e Anielle Franco os conduziu. O plenário aplaudiu. E ficou de pé, sem resposta, a pergunta que aplauso nenhum encerra: para quem a justiça racial chega tarde demais?
A resposta está no Atlas da Violência de 2025. Dos 45 mil assassinatos que o Brasil registrou em 2023, mais de 35 mil foram de pessoas negras, cerca de 77% do total. São 96 pessoas negras mortas por dia. Uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chance de morrer assassinada do que uma pessoa não negra. E há um dado que a estatística guarda no rodapé: 94% dessas vítimas são homens. Os 21,8 mil jovens de 15 a 29 anos mortos naquele ano, quase metade de todos os homicídios do país, têm rosto, idade e sexo. O corpo sobre o qual o racismo brasileiro assina sua sentença é, em maioria esmagadora, masculino, negro e jovem.
A justiça racial que o Brasil deve não é uma abstração chamada "população negra": é, em maioria esmagadora, uma conta de homens negros que não chegaram aos 30 anos, e nomear isso não divide o movimento, o instrui.
Há uma segunda morte que não entra no boletim de ocorrência. O Ministério da Saúde, na cartilha sobre óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros, registrou que o risco é cerca de 50% maior entre os jovens negros do sexo masculino do que entre os brancos da mesma idade, e chega a 67% maior na faixa dos 10 aos 19 anos. Enquanto a taxa entre os jovens brancos ficou estável, entre os negros ela subiu. Isso não é fraqueza de caráter nem falta de fé. É o menino negro que aprendeu cedo que pedir ajuda é entregar o único capital que lhe restou, a dureza. O silêncio em torno da saúde mental do homem negro é parte da engrenagem que o mata.
E existe a terceira via, a que não mata o corpo mas confisca a vida inteira. O Brasil fechou 2023 com 852 mil presos, o maior número da série histórica. Quase 70% são negros. 86% são homens. 72% têm até 30 anos. Entre os que ainda aguardam julgamento, sem condenação, três em cada quatro se declaram pretos ou pardos. O mesmo Estado que não protege o homem negro do tiro o prende antes da sentença. Reparação, a palavra que batizou a conferência, começa por admitir que essas três estatísticas descrevem a mesma pessoa em três tempos: o vivo sob suspeita, o preso sem julgamento, o morto sem inquérito.
Quase um ano depois, o risco da 5ª CONAPIR é o de toda conferência: virar caderno de propostas guardado na estante. A história recente já deu o aviso. O buraco de sete anos entre uma conferência e a seguinte não foi acaso, foi escolha de quem preferia não ouvir. As mais de 500 propostas de 2025 só valem alguma coisa se virarem o Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial com prazo, orçamento e responsável com nome e sobrenome. Sem isso, reparação vira palavra bonita de plenária, e o eixo que se chamou justiça racial segue devendo justiça justamente a quem mais morre.
Em Alagoas, onde o risco de uma pessoa negra ser assassinada é o mais alto do país, a distância entre o auditório em Brasília e a esquina em Maceió se mede em anos de vida que um rapaz não vai ter. A conferência foi grande. Agora precisa ser dura. Porque essa conta vence todo dia, na porta do IML, com uma mãe do lado de fora esperando para reconhecer o corpo do filho.