Contexto e Leitura

Na madrugada de 28 de outubro de 2025, cerca de 2.500 agentes da Polícia Civil e do BOPE desceram sobre os complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio. Ao fim do dia, o Instituto de Segurança Pública contou 121 mortos: quatro policiais e 117 homens apontados como ligados ao tráfico. Foi a operação mais letal da história do estado. Não houve indiciamento coletivo, não houve suspensão de comando, e a Secretaria de Segurança tratou o resultado como sucesso operacional, ao lado de uma tonelada de droga e 118 armas apreendidas, 93 delas fuzis.

Outubro não foi um pico isolado. O Rio fechou 2025 com 797 mortes decorrentes de intervenção policial em todo o estado, alta de 13% sobre as 703 de 2024, no mesmo ano em que o homicídio doloso caiu ao menor patamar da série histórica, 2.844 casos. O paradoxo é o dado central da segurança pública fluminense: menos gente morre por conta própria, mais gente morre pela mão do Estado.

Quem morre tem endereço, idade e cor. Um levantamento da Rede de Observatórios da Segurança, com dados de nove estados incluindo o Rio, mostrou que 86% das vítimas de ação policial no país em 2025 eram pessoas negras, e que jovens de até 29 anos, moradores de favela e periferia, respondiam por 65% dos casos. No Rio especificamente, a chance de um homem negro morrer em confronto com a polícia chega a ser seis vezes maior que a de um homem branco. Não é imprecisão estatística. É um filtro que separa quem pode ser abatido sem processo de quem não pode.

O estado transformou o território negro em zona de exceção permanente e chama isso de política de segurança.

A moldura jurídica que deveria conter esse número foi, ironicamente, afrouxada pouco antes do pico. O Supremo Tribunal Federal concluiu em 3 de abril de 2025 o julgamento da ADPF 635, a ADPF das Favelas, homologando parcialmente o plano de redução de letalidade apresentado pelo governo do Rio. No voto que prevaleceu, o relator Edson Fachin definiu que o Judiciário deve exercer controle posterior das operações, não mais autorização prévia de armamento e efetivo. Seis meses depois, veio Contenção. O Ministério Público do Rio, pelo GAESP, acompanha a operação sob os parâmetros fixados pelo STF; até esta edição, não há resultado público da apuração.

Os primeiros meses de 2026 mostram queda nos números oficiais: 192 mortes por intervenção policial no primeiro trimestre, 6,8% a menos que as 206 do mesmo período de 2025, e queda de 18% no quadrimestre encerrado em abril, segundo o ISP. É a estatística que a Secretaria vai usar para dizer que o modelo funciona. Ela não explica o que aconteceu em outubro, nem muda quem, historicamente, paga essa conta.

Marcus, 38 anos, supervisor de segurança em Acari, guarda a semana da última operação no bairro como se fosse ontem. A escola fechou dois dias. O filho de 11 anos não saiu de casa. "O boletim deles vai chamar de sucesso", ele disse. "Aqui a gente chama de sobreviver mais uma vez." O que os relatórios do ISP não medem é esse custo: a aula perdida, o posto de saúde fechado, o pai que ensina ao filho a andar de cabeça baixa perto da viatura, não porque ele fez algo, mas porque ele é filho de quem é e mora onde mora.

Nenhuma dessas mortes tem nome de bairro rico. Essa é a estatística que os números de queda não apagam.