Cinco cidades, cinco mães, um país
São Luís, segunda-feira, cinco e vinte da manhã. Vera sai de casa antes do bairro abrir os olhos porque o primeiro ônibus para o Hospital Carlos Macieira passa às cinco e quarenta e seis no ponto do Coroadinho. Dois meninos. Um de oito, outro de quatro. O de oito já sabe esquentar o leite no Mickey de plástico que ganhou da madrinha, sabe que o leite tem que ferver e descer. O de quatro chora quando a porta fecha, mas dorme antes do ônibus dobrar a esquina. Vera tem 34 anos, é técnica de enfermagem e gosta de Roberto Carlos da fase Cavalgada, música que canta baixinho no caminho do banho dos pacientes. No Dia das Mães ela faz plantão dobrado: R$ 180 a mais que vão virar tênis Olympikus para o de oito, porque o pé cresceu de novo. Vera é uma das 67% de trabalhadoras negras que sustentam os postos técnicos e auxiliares do SUS, segundo o Ipea. O SUS que atende no Coroadinho atende porque essas mãos atendem. No Dia das Mães, essas mãos estão dentro de prontuário, não dentro de bolo.
Em Salvador, Conceição, Ceiça para os de casa, dona Ceiça para a freguesia, abre o tabuleiro de acarajé na Barra desde as quatro da tarde, de costas para o Farol. Cinquenta e um anos, dois netos pequenos que dorme com ela três noites por semana enquanto a filha faz o técnico de contabilidade na CETEB. Ceiça aprendeu a receita com a mãe. A mãe aprendeu com a avó. A avó era filha de escravizadas libertas em São Francisco do Conde, caminho até o Recôncavo que cabe num azeite-de-dendê e numa farinha grossa que ninguém de fora sabe medir. A linhagem tem mais de um século. Está fora do Registro de Emprego, fora do INSS, fora do FGTS. As cerca de 3.500 baianas de acarajé ativas em Salvador têm um patrimônio cultural reconhecido pelo IPHAN desde 2005, e uma proteção trabalhista que ainda não saiu da gaveta da Anvisa. No domingo do Dia das Mães, Ceiça não fecha o tabuleiro. Quem serve o jantar para o turista não janta com o próprio neto. Mas Ceiça manda o de cinco anos esperar a primeira tigela vazia para vir buscar moeda, e ele vem correndo. Esse é o jantar dela.
No Rio, em Manguinhos, Dulce guarda no bolso do avental a foto da matrícula do filho. Ele de camisa branca, olhar firme, engenharia civil na UFRJ pelas cotas. Dulce tem quarenta e sete anos, limpa três apartamentos em Ipanema por semana, dois ônibus de cada lado do dia. O filho estuda à noite. Ela não diz que sente medo toda vez que a porta bate, porque dizer não resolve, e o que não resolve, na casa de Dulce, fica encerrado. Mas sente. Manguinhos registrou quatro mortes por bala perdida no primeiro trimestre de 2026. Nenhuma foi ele. Ainda. Esse "ainda" pesa o que pesa uma política de segurança pública que em 2024 matou 78% de vítimas negras. Dulce coleciona discos de Gerson King Combo desde os vinte anos. Põe "Brother" no toca-discos do Sr. Aurélio, vizinho, quando o filho vai dormir. O som baixo. O filho dorme. Ainda.
No Capão Redondo, São Paulo, Jandira tem sessenta anos, é avó de seis e trabalha como diarista três vezes por semana em Moema, três ônibus, dois trocos. Criou três filhos sozinha depois que o marido, pintor de obra, andaime no Tatuapé, caiu do quinto andar em 2009. Sem seguro-acidente regular. Processo que durou onze anos e fechou em R$ 42 mil. Onze anos. Quarenta e dois mil reais. A matemática da indenização brasileira para vida de homem preto é essa, e ela faz a conta em cabeça desde o velório. Nos dias que não vai para Moema, cuida dos netos para que as filhas possam ir para o trabalho delas, caixa de supermercado, balconista de farmácia, ajudante de creche. A FGV Social mediu: o trabalho doméstico não remunerado de mulheres negras equivale a cerca de 21% do PIB pelo método de custo de reposição. Vinte e um por cento. Mas nenhum economista vai colocar Jandira na planilha do PIB. O PIB que entra nas filhas de Jandira só existe porque Jandira está fora dele. Jandira não sabe disso. Jandira sabe da panela de pressão das doze e do banho do caçula às seis.
Na Restinga, Porto Alegre, Simone tem trinta e oito anos, professora de história da rede municipal, mãe de uma menina de nove que joga handebol no SESC aos sábados. Em 2024, oito meses sem reajuste enquanto o município renegociava o piso do magistério. Vaquinha de R$ 320 entre as próprias professoras para comprar caderno e lápis para a turma do quarto ano. No Dia das Mães deste ano, uma das mães dos alunos trouxe bolo de fubá ainda morno embrulhado em jornal velho. Simone não chorou na frente das crianças. Esperou o recreio para chorar no banheiro dos professores. A Restinga tem 78% de população negra e o menor IDEB da rede municipal de Porto Alegre. Raça, renda e educação condensadas em um bairro, num dado, num bolo de fubá e numa professora que compra lápis com a própria conta, e que ouve Elza Soares no carro emprestado da prima quando volta para casa às oito da noite.
Cinco cidades. Cinco mulheres. Cinco maternidades que o Dia das Mães comercial não foi feito para enxergar. Nos anúncios, a mãe brasileira aparece em cozinha clara, esmalte feito, recebendo flores de filho bem-posto. Fora do anúncio existe Vera, existe Ceiça, existe Dulce, existe Jandira, existe Simone, trabalhadoras de cuidado, de cozinha, de educação, de cultura, de sobrevivência de famílias inteiras. Figuras compostas de mulheres reais cujas histórias se repetem em variação nos mesmos bairros das mesmas cidades há décadas. A maternidade negra brasileira não é só sentimento. É regime de trabalho, não reconhecido, não remunerado, não protegido. Reconhecer não diminui o afeto. Aumenta a conta. E essa conta o Brasil paga há cento e trinta e oito anos com flor de domingo e folha de pagamento de segunda. O domingo passa. A segunda chega. As mãos continuam.