Cinco gráficos, cinco vidas, mesma equação

94 páginas. Cinco gabinetes. Dois responderam. O dossiê da Frente Negra Periférica desembarcou no Congresso no dia 13 de maio com PNAD Contínua, Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública costurados em cinco capítulos. Foi recebido com o interesse que a Casa reserva para esse tipo de leitura: mínimo. O protocolo registrou entrada às 14h22. Até a hora deste fechamento, dois assessores parlamentares pediram cópia digital. Os outros três responderam com a frase técnica que toda assessoria do mundo conhece: "vamos analisar com a equipe". 138 anos depois da Áurea, o número que importa não está nas 94 páginas — está na proporção entre quem leu e quem prometeu ler. A véspera do 13 fixou o argumento moral. O dossiê é a anatomia: cinco capítulos mensuráveis do que a data celebra e do que ela enterra.

R$ 2.190 contra R$ 3.780. É a diferença de rendimento médio entre homens negros e brancos com ensino superior no mesmo setor, segundo a PNAD Contínua de 2025 — hiato de 42% que sobrevive a qualquer controle estatístico que se aplique. Rone, 41 anos, operador de logística em Guarulhos com técnico em administração completo, recebe R$ 2.040 por mês. Abaixo da média de brancos sem diploma. Rone joga em time de futebol amador da empresa aos domingos e é torcedor de Botafogo desde os sete anos por causa de um tio que morava no Méier. O diploma muda o patamar de comparação. Não muda o hiato. O mercado brasileiro lê o currículo — e lê também a foto 3x4 que o RH ainda chama de "anexo obrigatório".

No patrimônio, a desigualdade é mais profunda do que a salarial porque acumula geração sobre geração. O Ipea mediu em 2024: famílias chefiadas por pessoas negras têm 23% do patrimônio imobiliário das famílias brancas de renda equivalente. Vinte e três por cento. Hélio, 55 anos, pedreiro em Feira de Santana com seis cursos profissionalizantes do SENAI guardados numa pasta plástica azul, nunca conseguiu financiamento habitacional. O imóvel da família — três cômodos no Bairro Sobradinho — não tem escritura formal. O bisavô de Hélio, alforriado em 1885 sem que nenhum cartório do Recôncavo registrasse seu nome, ergueu a casa em terreno que ninguém disputou na época porque ninguém disputa terreno de gente que acaba de sair da senzala. Cento e quarenta anos depois, a casa continua sem matrícula. O crédito negado em 2026 é o cartório fechado em 1885. A informalidade não passa. Herda.

Na escolaridade, o hiato de quinze pontos no ensino médio não fecha com cota universitária — porque o buraco começa antes. 61% dos jovens negros entre 18 e 24 anos concluíram o ensino médio. Entre brancos, são 76%. Diferença que se forma no subfinanciamento das escolas públicas das periferias, na rotatividade de professores, na merenda que falha em maio. Davi, 19 anos, em Manguinhos, queria ser engenheiro civil porque o tio é mestre de obras e levou-o a três canteiros antes dos dezesseis. Largou o ensino médio quando o único professor de matemática ficou seis meses sem substituto. A turma foi redistribuída para três salas diferentes. Voltou a se dispersar. Davi não voltou. A cota da UFRJ não consegue alcançar Davi porque a UFRJ não vai a Manguinhos contratar professor de matemática.

Antes mesmo de o dossiê fechar, os 3,7 anos aparecem. É a diferença de expectativa de vida ao nascer entre homens negros (69,4) e brancos (73,1), segundo o IBGE 2024. A mortalidade materna entre mulheres negras é 2,6 vezes a das brancas — pré-natal que chega tarde, parto sem leito, UTI lotada na hora da hemorragia. Benedito, 67 anos, em Belém, sobreviveu a três amigos mortos antes dos cinquenta. Dois por bala policial em operação no Tapanã em 2007. O terceiro por infarto que chegou três horas tarde ao único pronto-socorro de plantão naquele sábado. Benedito ainda joga dominó com o quarto, sobrevivente, no terreiro de Iemanjá em Icoaraci aos domingos. Os 3,7 anos têm endereço de morgue. Têm CID. Têm laudo. E têm portaria assinada que não vira inquérito.

78%. É a proporção de vítimas de intervenção policial que era negra em 2024. O dado encerra o dossiê porque encerra os outros quatro. De nada adianta fechar o hiato salarial, regularizar o quilombo, manter o filho até o terceiro ano, se a viatura da PM pode parar a frase no meio. A documentação está aí desde os anos 2000. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública publica todo ano. O CFP publica. Anistia Internacional publica. O Atlas da Violência do Ipea publica. A mudança sistêmica não acontece porque ninguém em condição de aprovar mudança tem filho que ande sozinho à noite em Manguinhos, no Tapanã, no Bairro Sobradinho. Cinco capítulos. Uma só convergência: o Brasil pós-abolição foi montado para que certas vidas custassem mais barato. A montagem não foi acaso. Foi engenharia. E engenharia se desfaz com outra engenharia.

A conta dos números é aritmética, não filantropia. 138 anos de vantagem acumulada de um lado produzem um déficit que política universal não cobre — porque o problema não foi universal. Foi racial, foi deliberado, foi protocolado em quase todos os cartórios do Império. As escolhas de política de 2026 vão aparecer no dossiê de 2036. A pergunta que o 13 de maio de 2026 coloca não é o que aconteceu em 1888. É o que vai estar nessas 94 páginas daqui a dez anos. O Congresso que recebeu o documento e mandou dois assessores ao protocolo já deu metade da resposta. A outra metade está na urna de 2026 — e na rua que sobe a Paulista no dia primeiro de cada maio.

DOSSIÊ — Compilação de múltiplas perspectivas sobre um tema, estruturado analiticamente.