Da Paulista, três centrais e uma pauta
87 mil pessoas na Paulista às 9h40. Maior concentração desde 2019. CUT, Força Sindical e UGT chegaram em três colunas separadas pela Consolação, pela Rebouças e pela Brigadeiro Luís Antônio — e se encontraram no vão do MASP com pauta de três linhas: revisão da reforma de 2017, mínimo acima da inflação para 2027, rejeição à PEC que empurra a aposentadoria para 67 anos. CUT e Força brigam há trinta anos sobre quase tudo. Hoje subiram no mesmo palco. Esse é o dado político da semana, e ele não veio por convergência doutrinária — veio porque as três pautas batem no mesmo corpo, o trabalhador negro informal sem rede.
A reforma de 2017 nunca saiu da mesa porque mirou onde já estava exposto. Eliminou a ultratividade, autorizou o contrato intermitente, fez o negociado valer mais que o legislado em quatorze pontos. O resultado mediu-se na PNAD Contínua de 2025: nos nove anos seguintes a informalidade entre homens negros de 18 a 35 anos saltou de 44% para 55%. Onze pontos. Entre brancos da mesma faixa, foi de 36% para 39%. Três pontos. A diferença não é margem de erro. É a régua. E nas categorias de entregador e motorista de aplicativo — maioria negra, maioria masculina, nas seis maiores capitais — 78% seguem sem nada de previdência, segundo o Ipea. A reforma prometeu formalizar quem estava fora. Empurrou para fora quem já estava na beira.
Sergio Nunes, presidente da CUT, subiu ao palco às 11h15 com uma proposta de emenda constitucional protocolada em março. Pede o retorno da ultratividade, limite de 20% de contratos intermitentes em empresas com mais de cinquenta funcionários, piso nacional para plataforma. Miguel Rodrigues, da Força Sindical, somou desoneração da folha para micro e pequena empresa. A ênfase diferente conta a verdade da unidade: tática, não doutrinária. Mas tática que tem 87 mil de cada lado pesa diferente no Congresso, onde a reforma de 2017 ainda tem advogados pagos por escritórios que cobram por hora.
O mínimo é o nó. R$ 1.640 desde fevereiro, reajuste de 7,3% sobre os R$ 1.528 de 2025, fórmula INPC mais variação do PIB de dois anos antes. As centrais querem 4% acima para 2027, levando o piso a R$ 1.803. Luiz Marinho, ministro do Trabalho, acenou positivamente na última reunião de abril. A equipe econômica não confirmou. O DIEESE projeta impacto fiscal de R$ 24,1 bilhões — número que aparece na manchete sem o número que nunca aparece ao lado: o que a previdência deixa de arrecadar todo ano com o trabalho informal não registrado. As duas contas são da mesma planilha. Só uma sai do gabinete.
Na aposentadoria, a matemática vira morte antecipada com nome de PEC. A PEC 18/2026 do deputado Altamiro Brito (PL-SP) eleva a idade mínima de 65 para 67 anos e o tempo de contribuição de vinte para vinte e cinco. A expectativa de vida do homem negro brasileiro é 68,4 anos, segundo o IBGE 2024. Aposentar aos 67 deixa 1,4 ano de aposentadoria estatística — quando deixa. Para o homem branco, são 5,1 anos a mais. A diferença não é detalhe atuarial: é uma transferência de tempo de vida útil para o caixa da previdência, paga por quem morre mais cedo. As centrais chamaram a PEC de necropolítica previdenciária. O ministro do TCU achou o termo forte. O ministro do TCU tem 71 anos.
Doze mil em Belo Horizonte, nove mil em Porto Alegre, sete mil em Salvador, seis mil em Recife. O 1º de maio de 2026 leu o mesmo país pela boca de seis capitais. O mercado de trabalho brasileiro saiu da pandemia mais segmentado por raça do que entrou. A PEC 18 vai a plenário em junho. O prazo é curto. Os 87 mil que tomaram a Paulista voltaram para casa com a conta aberta dentro do bolso.
A pauta do 1º de maio é a mesma de sempre. E é outra. A mesma porque reforma, mínimo e previdência são o tripé do sindicalismo há quarenta anos. Outra porque, pela primeira vez em uma década, as três centrais subiram ao palco com PNAD recortada por raça impressa na mão — não como identidade, como balanço. Quando a mesma lei tira três pontos de informalidade do branco e onze do negro, isso não é coincidência nem cultura nacional. É decisão de política. Política que tem autor, data e número de processo. E política tem solução política.
REPORTAGEM — Apuração factual com pessoas, dados e contexto verificado em campo.