No dia do trabalhador, o trabalhador ficou com a rua de trás. As centrais pediram a Avenida Paulista para o ato de 1º de maio e a Polícia Militar entregou a avenida aos grupos conservadores, Patriotas do QG, A Voz da Nação, Marcha da Liberdade, pelo critério de antecedência do pedido. O ato dos sindicatos desceu para a Praça da República e a Praça Franklin Roosevelt, algumas quadras abaixo, a CTB com PSOL e PCdoB na Roosevelt, a CSP-Conlutas na República. E a pauta que puxou a mobilização não foi o salário mínimo nem a aposentadoria. Foi o fim da escala 6x1. O homem que carregava aquela faixa é o assunto desta semana.

A escala 6x1 é seis dias de trabalho para uma folga. É o regime do comércio, da vigilância, da limpeza, do transporte, da cozinha de restaurante. Não é um horário qualquer, é o horário de um perfil. Levantamentos do Sindicato dos Comerciários e do Observatório do Estado Social apontam que, na 6x1, a maioria é de jovens negros que ganham até um salário mínimo, hoje R$ 1.621. Negros são maioria entre os que vivem essa escala e recebem os menores salários dela. A folga única costuma cair no meio da semana, quando a família está no trabalho e na escola. O domingo, quando ela está em casa, é dia de vender.

A escala 6x1 não é um horário de trabalho. É a forma como o país decide quem tem direito a domingo.

Quem a defende fala em liberdade de contrato. A liberdade tem endereço. A reforma de 2017 prometeu formalizar quem estava fora, e a informalidade que ela deixou não é distribuída no acaso. No quarto trimestre de 2024, segundo a PNAD Contínua do IBGE, a taxa de informalidade era de 32,6% entre os brancos, 41,9% entre os pretos e 43,5% entre os pardos. Entre os jovens homens negros, chega a 45,3%. O trabalhador negro registrado na 6x1 paga a conta com o domingo. O que não está registrado paga com a ausência de qualquer direito. As duas contas saem do mesmo bolso.

Há uma conta pior, que se mede em anos. O homem negro brasileiro vive, em média, 68,65 anos, contra 74,52 do homem branco, quase seis anos a menos, segundo cálculo do IMDS com o Cedeplar da UFMG a partir do Censo e dos registros de óbito. A maior parte dessa distância vem de mortes precoces por causas externas, concentradas entre os 15 e os 34 anos. Quando o descanso semanal é um domingo a cada seis dias, e a vida inteira é mais curta, a escala 6x1 não subtrai só um dia. Subtrai domingos de uma soma que já era menor. Descanso, para esse trabalhador, não é conforto. É expectativa de vida.

O 1º de maio botou a pauta na rua, e o Congresso a moveu. Em 27 de maio a Câmara aprovou, em dois turnos, a PEC 221 de 2019, que fixa a jornada máxima em 40 horas semanais sem perda de salário e garante duas folgas por semana, uma delas preferencialmente aos domingos. Foram 472 votos a 22 no primeiro turno, 461 a 19 no segundo. O texto saiu de um substitutivo do deputado Leo Prates (Republicanos-BA), sobre proposta de Reginaldo Lopes (PT-MG), e incorporou a PEC 8 de 2025 da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), com transição escalonada. No dia 28 seguiu para o Senado. E ali parou. O presidente Davi Alcolumbre não encaminhou a PEC à Comissão de Constituição e Justiça, avisou que pretende mudar o texto, e o recesso de julho empurra a votação para longe, com risco de só voltar depois das eleições.

O trabalhador da 6x1 vai cumprir o sábado e o domingo desta semana como cumpriu os anteriores. A avenida que ele não teve no dia primeiro e o domingo que ele não tem há anos são a mesma subtração, feita pela mesma mão. E ela tem número de processo.