O desmate cai no mapa nacional e continua pesando sobre quem vive na borda da floresta

Davi, 52 anos, liderança do quilombo de Boa Vista do Cuminã, em Oriximiná, acorda às quatro da manhã quando o rio está baixo o bastante para cruzar de canoa até o ramal onde fica o pasto. O pasto não era pasto dois anos atrás, era floresta, e ele conhecia cada castanheira pelo porte. Agora restam tocos e capim colonião. O paradoxo é que, no boletim nacional, essa cena não aparece como piora. O Imazon apurou queda de 17% no desmatamento da Amazônia no primeiro trimestre de 2026 ante o mesmo período do ano anterior. O quadro nacional recua. A vida de Davi, no ramal de Boa Vista, não.

O motivo dessa distância é geográfico. A queda é puxada pelos estados que historicamente lideravam a derrubada. No Amazonas, a área desmatada em janeiro caiu 56,4%, de 1.656 para 722 hectares, segundo o sistema DETER do INPE. Na estimativa anual do PRODES referente a 2025, a Amazônia Legal fechou em 5.796 km² de floresta derrubada, queda de 11% sobre 2024 e o menor índice em onze anos, com oito dos nove estados em recuo e Roraima entre os que mais caíram, mais de 37%. Um único estado subiu: Mato Grosso, sozinho, cresceu 25% na mesma medição. É lá, e nas frentes pontuais de pressão que a média nacional não captura, que a motosserra segue avançando enquanto o número-síntese melhora.

Benedito Macedo, da ARQMO, a associação que reúne as comunidades quilombolas de Oriximiná, repete há anos a mesma frase diante do poder público: título fundiário sem fiscalização é papel. Os fazendeiros conhecem os limites do território tão bem quanto o próprio INCRA, porque acompanham de perto os processos que ainda tramitam. O Alto Trombetas II, com 189.657 hectares, teve a portaria de reconhecimento do INCRA publicada em julho de 2018 e segue sem titulação definitiva quase uma década depois. É esse hiato, entre reconhecer no papel e titular na prática, que abre a janela para a grilagem.

Em Alcântara, no Maranhão, a lógica é outra e mais antiga. Famílias quilombolas removidas nos anos 1980, quando a Aeronáutica ergueu a base de lançamento, seguem tentando reaver terra e reparação quatro décadas depois. Em setembro de 2024, o INCRA reconheceu, pela Portaria 658, 78.105 hectares como território quilombola de Alcântara, e o Decreto 12.190, do mesmo mês, declarou as propriedades dentro do perímetro de interesse social para desapropriação. A Advocacia-Geral da União registrou que a Organização Internacional do Trabalho reconheceu o avanço do Brasil no cumprimento da Convenção 169. Passos reais, que ainda não devolveram a terra.

O desmate amazônico tem rosto masculino em dois sentidos opostos: o do grileiro que aposta na lentidão do Estado para consolidar a posse ilegal, e o do homem quilombola que permanece como guardião de um território que o INCRA reconhece no papel mas não titula na prática. A queda nacional do desmatamento não fecha essa distância. Ela só torna mais nítido onde a exceção continua sendo a regra.

Em maio de 2025, o Fundo Amazônia anunciou a entidade gestora da iniciativa Naturezas Quilombolas, com até R$ 33 milhões para fortalecer a gestão territorial de 40 comunidades quilombolas da Amazônia Legal. É das primeiras vezes que um edital do fundo nomeia essas comunidades como beneficiárias diretas, e não como público secundário de projetos tocados por terceiros. Benedito, de Oriximiná, resume o que falta: quem conhece a floresta raramente é quem recebe primeiro o dinheiro para protegê-la.