No dia 28 de outubro de 2025 a maior operação policial da história do Rio de Janeiro entrou pelos Complexos do Alemão e da Penha e deixou, pela contagem do próprio estado, 121 mortos. A Defensoria Pública, depois que moradores desceram corpos da mata onde os deixaram cair, chegou a 132. Da tribuna, o governador Cláudio Castro chamou o dia de operação bem-sucedida contra o Comando Vermelho. Da janela do apartamento onde uma criança se agachava atrás do sofá, o dia teve outro nome. É por essa janela, e não pela tribuna, que se lê o que o Rio faz com seus meninos.
A palavra que o noticiário usa para a criança que cai é bala perdida. Chamar assim é um gesto político, não uma descrição. A bala não estava perdida. Foi carregada, apontada e disparada por alguém dentro de uma cadeia de comando que começa numa reunião de planejamento e termina no muro da escola. O Instituto Fogo Cruzado, que monitora disparos na região metropolitana desde 2016, contou 26 crianças baleadas em 2024, o maior número de toda a sua série histórica. Nos primeiros 75 dias de 2025, as vítimas de bala perdida no estado subiram 58% sobre o mesmo intervalo do ano anterior. A curva não é acaso. É orçamento, é doutrina, é escolha de método.
O método tem defensor com nome. Em abril de 2025 o Supremo Tribunal Federal encerrou a fase mais rígida da ADPF das Favelas e homologou apenas em parte o plano do estado para reduzir a letalidade: câmera na farda, aviso prévio ao Ministério Público, planejamento antes de entrar. O Rio recebeu a decisão e fez o contrário. Entre janeiro e março daquele ano o Fogo Cruzado registrou mais de 640 tiroteios na região metropolitana, quase 280 deles durante operação policial. Depois de o estado ter batido em 2024 a menor letalidade da série, 703 mortes por intervenção, o número voltou a subir quase 14%. Retomar território, na prática, virou entrar de helicóptero e caveirão onde se havia prometido câmera e inteligência.
A bala que chamam de perdida sabe exatamente onde mora o menino negro.
Sabe porque o mapa da operação é o mapa da cor. O Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF contabilizou, entre 2007 e 2020, 11.323 operações policiais no Rio que produziram 12.663 mortes por intervenção do Estado, e concluiu o que qualquer morador do Alemão diz de graça: a incursão não desmonta o tráfico, ela adoece a rua. Quem morre nessa rua tem endereço e tem pele. No país, 8 em cada 10 mortos em ação policial são negros. No Rio, uma pessoa negra corre risco cerca de seis vezes maior de morrer pela mão do Estado do que uma pessoa branca. O comunicado oficial da corporação não registra a cor da vítima. A omissão é o argumento: nomear a cor do menino caído seria nomear a cor da mira.
E a mira é jovem. O corpo que a operação encontra na esquina é quase sempre o de um menino, de dois, de doze, de quatorze anos, o mesmo menino que o discurso público já tratava como suspeito antes de a bala sair do cano. A masculinidade negra no Rio se forma sob pressão dupla, recrutada pela facção que ocupa a ausência do Estado e caçada pelo Estado que só aparece de fuzil. Entre as duas violências, o que sobra ao garoto é aprender, aos dez anos, a se jogar no chão quando o helicóptero passa. Isso não é infância. É adestramento para uma guerra que ele nunca declarou.
Cláudio Castro está no Palácio Guanabara desde 2021 e governa um estado onde a conta de mortos vira manchete de vitória. A Defensoria Pública passou a monitorar operações com três ou mais mortos, resposta mínima diante de uma máquina que faz 121 num dia só. Enquanto a tribuna comemorar o número que a janela chora, a próxima bala já está no pente. Ela não vai se perder. Nunca se perdeu.