O alferes, e os que a história sumiu

Em três semanas, o Brasil vai comemorar o 21 de abril como faz há décadas. A data cai numa terça-feira em 2026, e o governo federal já decretou ponto facultativo na segunda anterior, o que empilha sábado, domingo, segunda de folga e terça de feriado num feriadão de quatro dias. Desfile cívico, busto de bronze, o alferes Joaquim José da Silva Xavier elevado a mártir da liberdade nacional. O problema não é o feriado prolongado, é o mártir que ele celebra. Tiradentes foi enforcado em 1792 como traidor da Coroa, homem de origem social baixa, desclassificado que ousou conspirar contra o poder que devia servir. A história oficial o devolveu à nação com pele indefinida e aura cristológica. Historiadores negros estão desconstruindo essa operação em tempo real, e as próximas três semanas vão mostrar quanto dessa revisão alcança as comemorações de Estado.

Eduardo de Oliveira e Oliveira já denunciava, nos anos 1970, o padrão pelo qual o Brasil fabrica heróis nacionais a partir de figuras de fronteira racial, branqueando-as no processo. O sociólogo negro construiu, ao lado de Beatriz Nascimento e Clóvis Moura, um projeto teórico sobre como a produção historiográfica brasileira lida com sujeitos racializados, e a crítica se aplica com precisão ao caso Tiradentes. O que é específico nele é a eficiência da canonização: o alferes virou santo laico e, nessa ascensão, perdeu a materialidade social que o tornava subversivo. Pesquisadoras como Ana Flávia Magalhães Pinto (UnB) documentam como a escola pública reproduz essa versão asséptica geração após geração, sem que o currículo oficial mencione quem mais circulava nas redes de informação da Capitania de Minas Gerais em 1789.

A Inconfidência era, antes de tudo, um projeto de elite endividada e escravocrata. Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e os demais conspiradores eram senhores de escravizados, devedores da Coroa, interessados em autonomia fiscal, não em abolição. Nenhum documento da conspiração propõe emancipação. Tiradentes ocupava posição subalterna dentro do próprio grupo: dentista sem clientela fixa, militar de patente baixa, o único que assumiu culpa integral quando a conspiração desabou sob delação. Sua execução foi um acerto de contas social. Os ricos compraram perdão ou exílio; o pobre foi enforcado e esquartejado, os pedaços do corpo espalhados pela estrada entre Minas e o Rio como advertência.

A heroificação começou com a República, não com a morte. Em 21 de abril de 1890, dois anos após a Abolição e um após a Proclamação, o novo regime instituiu o feriado e precisava de um mártir civil que não fosse monárquico e servisse a todos os projetos de nação ao mesmo tempo. O alferes foi pintado com cabelo comprido, olhar sofrido, pose de crucificado, a iconografia da Paixão transferida para a política laica. José Murilo de Carvalho descreveu esse processo em A Formação das Almas (1990): os positivistas que desenharam os símbolos da República fracassaram em fixá-los popularmente por conta própria, e recorreram à religiosidade católica que já circulava entre o povo para colar Tiradentes a Cristo, traído por um Judas chamado Joaquim Silvério dos Reis. A República escolheu seus santos antes de ter seu povo.

O que a historiografia negra acrescenta agora é a pergunta sobre quem não entrou nessa iconografia. Minas Gerais em 1789 tinha a maior população escravizada da colônia, movida pela mineração, e africanos e crioulos circulavam nas mesmas redes de informação que os conspiradores brancos, denunciando, sendo denunciados, desaparecendo dos autos sem nome. Esses sujeitos não viraram feriado nem busto. A heroificação de Tiradentes não é apenas o branqueamento de um indivíduo mestiço transformado em símbolo pálido, é o apagamento sistemático dos sujeitos negros da história política do Brasil colonial, o mesmo apagamento que faz da Inconfidência uma história de senhores de escravos contada como epopeia de liberdade.

Nesta terça-feira prolongada de abril, a expectativa é que o formato oficial das comemorações em Ouro Preto e Brasília permaneça o de sempre: guarda de honra, discurso, desfile. O que ainda não está definido é se algum ato paralelo com historiadores do campo afro-brasileiro vai ganhar espaço na programação institucional ou continuar por fora dela, à margem da data que o Estado insiste em manter monocromática.