Cento e oito mulheres negras morrem para cada cem mil que dão à luz no Brasil, e entre as brancas morrem quarenta e sete. A razão exata que o Ministério da Saúde levantou no intervalo de 2010 a 2023 é 108,6 contra 46,9 óbitos por cem mil nascidos vivos. Em 2025 a mortalidade materna do país caiu ao menor patamar em mais de uma década, 55,2 por cem mil, uma queda de 51,1% em relação ao pico de 117,4 da pandemia. A média melhorou. A distância entre a mãe negra e a mãe branca não: ela ainda morre 2,3 vezes mais. A queda geral desceu na avenida do discurso oficial. Não dobrou a esquina da UBS onde a mulher negra espera a vez que o corredor não guarda para ela.
O 25 de julho não é data de flor na lapela. É o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, nascido em 1992 no primeiro encontro das mulheres negras da região, em Santo Domingo, e convertido no Brasil, pela Lei 12.987 de 2014, em Dia Nacional de Tereza de Benguela, a rainha quilombola que comandou o Quariterê, em Mato Grosso, com sistema próprio de defesa antes de o Estado brasileiro admitir que ela existia. A data cumpre uma tarefa única: obrigar o país a encarar o número que ele prefere arredondar na hora do discurso.
A conta da desigualdade brasileira fecha primeiro no corpo da mulher negra, e o homem negro precisa decidir de que lado dessa conta ele está.
No contracheque, a distância tem cifra. A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, divulgada em dezembro de 2025, mostra que o trabalhador branco ganha 65,9% a mais que o preto ou pardo, e que a mulher recebe 27,2% menos que o homem. A mulher negra carrega as duas contas somadas no mesmo bolso, e o saldo é sabido há anos: ela leva para casa menos da metade do salário de um homem branco na mesma função, algo perto de 48%. Nenhum auxílio conserta isso. Transferência de renda alivia a fome do dia 30. Não muda quem o mercado escolhe para a gerência, onde o homem embolsa em média 10.073 reais e a mulher, 6.776.
É aqui que a conversa deixa de ser só sobre elas. O Atlas da Violência de 2025, do Ipea com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registra que 68% das mulheres assassinadas no Brasil em 2023 eram negras, 2.662 de um total de 3.903. Entre as vítimas de violência doméstica, 59% são negras. O risco de uma mulher negra ser morta é 1,7 vez o de uma não negra. E é preciso dizer o que o dado insinua e o discurso engole: parte das mãos que espancam e matam dentro de casa é preta. O homem negro que se levanta contra a viatura na esquina e se cala diante do grito no cômodo ao lado faz uma leitura seletiva do próprio racismo. Aceita o papel de vítima. Recusa o de cúmplice.
Defender a mulher negra não é cavalheirismo nem favor de irmão. É a outra metade exata da luta que o homem negro diz travar. Não se reivindica Zumbi na segunda-feira e se esquece Tereza de Benguela na sexta. O quilombo que a rainha do Quariterê comandou punha homem e mulher na mesma trincheira, e nenhum quilombo resistiu com metade da tropa desarmada dentro da própria casa. A masculinidade negra que só sabe se doer da bala e nunca do tapa é uma masculinidade pela metade.
O Estado tem resposta parcial. A Rede Alyne, do Ministério da Saúde, promete cortar pela metade a mortalidade materna das mulheres negras até 2027. Leva o nome de Alyne da Silva Pimentel Teixeira, negra, 28 anos, mandada de volta para casa com analgésico em 2002 e morta dias depois, caso pelo qual o Brasil foi responsabilizado pela ONU em 2011, a primeira condenação do país por violência obstétrica e morte materna. A meta é justa. Meta com prazo curto e sem dinheiro amarrado à raiz do problema ainda é promessa, e promessa não segura a mão de uma parturiente.
Entre 2000 e 2020 o Brasil somou 40.907 mortes maternas, quase 60% delas de mulheres negras e pardas. É o tamanho da fila que o 25 de julho pede para o país olhar sem desviar o rosto. Conceição Evaristo chamou de escrevivência o ato de escrever a vida que a estatística prefere resumir. Em 2026 a estatística resumiu, e o resumo pesa quarenta mil nomes. Falta a política ouvir. E falta o homem negro entender que essa fila também é a dele.