No dia 25 de fevereiro de 2026, o Supremo Tribunal Federal levou pouco mais de vinte e quatro horas para fechar o que o Brasil deixou aberto por quase oito anos. Por unanimidade, os ministros condenaram os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão a 76 anos e três meses cada, mandantes do assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Ronald Paulo de Alves, o homem que seguiu a rotina da vereadora e entregou seus passos aos executores, pegou 56 anos. Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, ficou com 18 anos, não por planejar a morte, mas por ter sido contratado depois para enterrar a investigação. Robson Calixto Fonseca, 9 anos. Sete milhões de reais de indenização às famílias. A um mês de completar oito anos, a cadeia inteira de comando tinha nome, pena e data.

A conta de baixo já estava fechada havia mais tempo. Em 31 de outubro de 2024, o Tribunal do Júri do Rio condenou Ronnie Lessa a 78 anos, 9 meses e 30 dias, e Élcio de Queiroz a 59 anos, 8 meses e 10 dias. Lessa era sargento reformado da Polícia Militar, atirador de elite, homem do Escritório do Crime, a milícia em cuja órbita a polícia achou 117 fuzis desmontados guardados na casa de um amigo dele. Queiroz dirigia o carro dos executores. Do gatilho à ordem, do fuzil ao gabinete, o aparelho que caçou Marielle era feito de homens fardados ou ex-fardados. A milícia carioca é uma instituição masculina. Vende segurança, cobra pedágio, executa por encomenda, e recruta nas mesmas quebradas onde mora quem ela mata.

É aqui que a masculinidade negra entra no caso, e não como nota de rodapé. Marielle era vereadora em exercício quando morreu, eleita em 2016 com 46.502 votos, a quinta mais votada da cidade, nascida na Maré. O mandato dela tinha assunto concreto: a letalidade policial, o abuso contra jovens pretos em território de milícia. Ela morreu defendendo, entre outros, os meninos negros que a farda mata na esquina sem manchete. A mulher preta que fazia esse trabalho foi executada por um braço armado de homens.

A morte de Marielle não é pauta de mulher que os homens acompanham de longe. É a conta de quem ela protegia, cobrada no corpo de quem dirigia o carro.

Porque havia um segundo homem no carro. Anderson Pedro Matias Gomes estava no volante porque era o trabalho dele naquela noite. Não respondia a inquérito, não devia nada a ninguém, dirigia. Casou com Ágatha em 2014, montou o primeiro apartamento em Engenho da Rainha, sonhava em virar mecânico de aeronaves. Deixou um filho, Arthur, com deficiência, de pouco mais de um ano na noite da emboscada, que desde então passou por sete cirurgias. O país aprendeu a dizer Marielle. Anderson virou "e o motorista", a vírgula depois do nome que importava. No júri, a viúva contou que a dor não passa, que a cada primeira vez do filho, o primeiro passo, o primeiro "mamãe", falta o pai. Um homem preto morreu ao lado da vereadora e quase sumiu da própria morte.

Esse apagamento tem método. O homem preto comum, o que trabalha, o que dirige, o que sustenta um filho doente, entra na estatística como dano colateral mesmo quando a bala tinha endereço. Anderson foi alvo, não estilhaço. A mesma cidade que produz o miliciano fardado produz o Anderson que ele mata: os dois saem da periferia, um de farda, outro de crachá de motorista, e o Estado só guarda a memória de um deles quando há sobrenome de peso para sustentar.

É o que Anielle Franco tem segurado na marra. Irmã de Marielle, ministra da Igualdade Racial desde janeiro de 2023, converteu o luto em cargo e o cargo em política. Foi por determinação do próprio Supremo, que reconheceu o racismo estrutural, que o ministério tocou o segundo Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial, montado sobre as propostas da conferência de 2025. É extraordinário e desconfortável ao mesmo tempo: que o legado de uma vítima precise de uma irmã ministra para não evaporar diz menos sobre a família e mais sobre a memória curta de um Estado que só guarda racismo enquanto há gabinete empurrando.

O Instituto Marielle Franco faz a outra ponta, sem gabinete. Formou a primeira turma da Escola Marielle de Comunicação, a Narra o Futuro, aberta em julho de 2025 com a UFRJ, para jovens pretos e periféricos do Rio. Criou o Fundo Marielle Franco, que banca ações culturais de quebrada com verba miúda e formação política. Não é monumento. É pauta de mandato virando gente formada, que é a única forma de legado que a milícia não consegue executar.

Oito anos depois, a Justiça fez a parte dela: a corrente de comando está presa. Falta a nossa. A pergunta que sobra para os homens pretos deste país não é como homenagear Marielle no dia 14 de março. É o que foi feito das pautas pelas quais ela e Anderson morreram, e se quem ela protegia na esquina aprendeu, enfim, o nome do motorista.