O recorde de fevereiro e a fila do crachá

O balanço do Carnaval de 2026 chegou redondo. O Ministério do Turismo estimou R$ 18,6 bilhões movimentados no país em fevereiro, alta de 10% sobre 2025 e o melhor resultado para o mês desde o início da série histórica, em 2011, com mais de 65 milhões de pessoas na festa. A Confederação Nacional do Comércio, que mede pelo recorte do turismo, projetou R$ 14,48 bilhões e 39,2 mil vagas temporárias. Os dois números são verdadeiros. Nenhum deles diz quem, dentro dessa cadeia, sai da folia com carteira assinada.

O dinheiro tem endereço conhecido. São Paulo, com 16,5 milhões de foliões, respondeu por impacto acima de R$ 7 bilhões; o Rio, com cerca de 8 milhões e hotéis a 98% de ocupação, por aproximadamente R$ 5,7 bilhões; Recife e Olinda, com 7,6 milhões de pessoas, por R$ 3,2 bilhões. No recorte da CNC, bares e restaurantes lideram a receita, com R$ 5,77 bilhões, à frente de transporte, com R$ 3,73 bilhões, e hospedagem, com R$ 1,44 bilhão. É a hospitalidade que absorve o grosso, e é nela que o vínculo formal se concentra no caixa, no gerente e na rede, não no braço que monta o palco e serve o copo.

A própria CNC oferece o número que resume o arranjo. Das 39,2 mil vagas temporárias, bares e restaurantes abrem 27,9 mil, e a taxa de efetivação projetada para 2026 é de 11%, recuo frente aos 16% do ano anterior. Traduzido, de cada cem pessoas contratadas para a festa, menos de doze devem continuar empregadas quando ela acaba. O carnaval é uma máquina de contratar e descontratar, e funciona exatamente como foi desenhada.

A palavra que o balanço não usa é informalidade. No quarto trimestre de 2024, o IBGE mediu 38,6% de trabalho informal no país, 32,6% entre os brancos, 41,9% entre os pretos e 43,5% entre os pardos. É o mesmo trabalhador que ganha menos, com rendimento médio de R$ 2.403 para pretos e R$ 2.485 para pardos contra R$ 4.153 para brancos, que entra e sai da temporada sem seguro-desemprego, sem décimo terceiro, sem o vínculo que transforma renda de fevereiro em direito.

Quem carrega alegoria, ergue a estrutura do camarote, empurra o carrinho de cerveja no meio do bloco e recolhe o que a festa deixa no chão é, no circuito da avenida, majoritariamente homem negro. É trabalho de força e de rua, o tipo de ocupação em que o país sempre pôs o corpo preto e raramente ofereceu contrato. O ritmista que ensaia desde setembro, o montador que dorme no galpão e o ambulante que vira a noite não entram no press release porque não são a fotografia que vende a marca do evento.

Salvador dá a medida da política pública possível. A prefeitura fechou o balanço em R$ 3 bilhões injetados na economia, 250 mil empregos diretos e indiretos e 12,5 milhões de pessoas no período. Credenciou 4.300 ambulantes, cerca de 15 mil trabalhadores, e atendeu 2.600 catadores autônomos. Bruno Reis contabilizou 17 mil visitas aos centros de acolhimento com banho e descanso, e 601 crianças no programa Salvador Acolhe, filhos de ambulantes. É política real, e é avanço. É também a confissão de que, sem a credencial da prefeitura, o homem que faz o carnaval não tem onde tomar banho, onde comer nem onde deixar o filho.

O prefeito celebrou que a arrecadação de patrocínio, acima de R$ 65 milhões, superou o que a cidade pagou por bandas, blocos afros e toda a programação artística. A frase é vitória de gestão e retrato de quem manda: a marca paga o palco, define o camarote e leva a imagem. O trabalhador de base entra na conta como custo variável, credenciável em fevereiro e dispensável em março. O arranjo foi montado para que o topo assine contrato anual e a base assine, no máximo, um crachá de temporada.

A pergunta que sobra não é sobre o tamanho do bolo. R$ 18,6 bilhões é bolo grande, e ninguém aqui defende menos carnaval. A pergunta é por que o homem negro que ergue a festa segue tratado como insumo sazonal, chamado quando a folia precisa de braço e devolvido à informalidade quando ela acaba. Enquanto a carteira assinada for exceção credenciada, e não regra da cadeia, o recorde de fevereiro vai continuar sendo renda que passa pela mão de quem faz e para na conta de quem assina.