O carnaval coroou um mecânico do Morro de São Carlos, e a distância entre esse título e o sexto lugar de um enredo sobre um curador negro da Amazônia diz mais sobre o Brasil do que qualquer samba
Moacyr da Silva Pinto trabalhou como mecânico de automóveis antes de virar mestre de bateria, e em 2026 a Unidos do Viradouro fez dele o próprio enredo. "Pra Cima, Ciça!", assinado pelo carnavalesco Tarcisio Zanon, narrou os cinquenta e cinco anos de carreira do homem nascido no Morro de São Carlos em 1956: passista da Unidos de São Carlos aos 15 anos, agogozeiro, mestre de bateria estreante em 1989, campeão pela Estácio em 1992, e desde 2019 comandante da Furacão Vermelho e Branco da Viradouro, com títulos em 2020, 2024 e agora 2026. A escola levou o quarto título de sua história, e Ciça recebeu do Estandarte de Ouro o prêmio de Personalidade do Ano, além de Melhor Escola e Melhor Enredo para a agremiação. Um homem negro que varou meio século ganhando a vida com as próprias mãos, primeiro sob um carro, depois sob dezenas de instrumentos de percussão, foi celebrado pela Sapucaí como sujeito da própria história, não como pretexto para a de outra pessoa.
A segunda colocada tratou de resistência religiosa negra sem meio-termo. A Beija-Flor de Nilópolis levou "Bembé", enredo assinado pelo carnavalesco João Vitor Araújo sobre o Bembé do Mercado, o maior candomblé de rua do mundo, realizado há 136 anos em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. A sinopse oficial da escola nomeou o problema sem rodeio: a abolição ocorreu sem qualquer política de reparação social, e a ocupação da praça pública por mais de sessenta terreiros de matriz africana funciona como resposta histórica a essa ausência. É um enredo que não pede licença para existir, e a nota da escola, vice-campeã, mostra que a Sapucaí sabe recompensar isso quando a pesquisa é rigorosa e a bateria entrega.
A Mangueira terminou em sexto entre os seis finalistas, com 269,2 pontos, ao apresentar "Mestre Sacaca do Encanto Tucuju, o Guardião da Amazônia Negra", enredo do carnavalesco Sidnei França sobre Raimundo dos Santos Souza, curador afro-indígena do Amapá que navegou os rios do extremo Norte tratando com ervas, raízes e saberes de populações tradicionais. A escola perdeu 0,2 ponto em comissão de frente, 0,2 em enredo, 0,2 em samba-enredo e 0,2 no casal de mestre-sala e porta-bandeira, décimos que separaram um enredo sobre um homem negro curador de um sexto lugar. A imprensa carnavalesca registrou a emoção do público e a força do tema; o julgamento técnico, decimal por decimal, colocou justamente esse enredo mais distante do pódio entre os seis.
A quinta colocada usou outro corpo masculino como matéria-prima. A Imperatriz Leopoldinense trouxe "Camaleônico", do carnavalesco Leandro Vieira, homenagem a Ney Matogrosso construída sobre a ambiguidade entre a fera e a face humana: colo coberto de pelo, ventre masculino, timbre feminino nascendo em boca de homem. É um enredo sobre masculinidade posta em xeque publicamente, mas o corpo em questão é branco, e o resultado, quinto lugar, não sofreu o mesmo desgaste decimal que atingiu o enredo sobre o curador amazônico. A Sapucaí tolera bem a transgressão de gênero quando ela vem embalada em plumas e referências de MPB; tolera menos a reivindicação de que um homem negro comum, historicamente anônimo, mereça o centro do desfile.
O Desfile das Campeãs aconteceu no sábado, 21 de fevereiro, com show de abertura de Michel Teló, Leo Santana e João Gomes antes das seis escolas voltarem à Marquês de Sapucaí em ordem inversa de classificação. Ciça desfilou de novo à frente da própria bateria, revendo em cada quadra a plateia aplaudindo a biografia de um homem que nunca fingiu ser outra coisa além do que sempre foi: um trabalhador negro do Estácio que aprendeu a marcar o tempo com as mãos. Essa é a imagem que a Sapucaí escolheu para representar 2026. As demais, sobre curadores anônimos e terreiros de rua, ficaram para trás na apuração, esperando o próximo fevereiro.