Na noite de 6 de outubro de 2024, quando o país terminou de contar os votos, o placar registrava 26.789 vereadores autodeclarados pretos ou pardos, 786 a mais do que em 2020. O número entrou nos telejornais como avanço, e avanço houve. Mas ele carrega uma segunda conta, menos confortável, que só aparece quando se separa quem se candidatou de quem de fato venceu. Homens negros chegaram a 37% dos cargos eletivos do país e, ainda assim, apenas um em cada seis candidatos homens negros conseguiu se eleger. A cada quatro candidatos brancos que entraram na câmara, um negro entrou. A eleição não barra o homem negro na largada. Ela o barra na chegada.

O funil que produz esse resultado não é misterioso, é orçamentário. Desde 2020 os partidos são obrigados a destinar no mínimo 30% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do fundo partidário a candidaturas pretas e pardas, regra que a Emenda Constitucional 133, de 2024, fixou como piso permanente e que o Supremo confirmou em julho de 2026. No papel, é reparação. Na prática, a iniciativa Pacto pela Democracia projetou que as candidaturas negras deixariam de receber cerca de R$ 1,1 bilhão pela forma como o dinheiro foi distribuído, porque piso não é teto e os partidos entregaram o mínimo. Homens negros e mulheres negras receberam verba menor do que a proporção das próprias candidaturas. O candidato negro corre a mesma prova com menos combustível e depois é cobrado pela velocidade.

Ser candidato negro ficou possível. Ser eleito negro continua caro.

São Paulo mostra o desenho inteiro. A maior câmara do país passou de 11 vereadores negros em 2020 para 16 em 2024, enquanto os homens brancos caíram de 33 para 23 das 55 cadeiras. É deslocamento real de poder. Mas há um detalhe que a leitura apressada pula: desde 2020, mais mulheres negras do que homens negros ocupam essas cadeiras na cidade. O homem negro que entra na política descobre que não é, por automatismo, o rosto do avanço negro. Ele disputa recurso, tempo de rádio e legenda dentro da própria cota, inclusive com a companheira de chapa que a mesma regra também protege. Quem lê isso como perda finge não enxergar que a sub-representação nunca foi só masculina.

No agregado nacional, a distância permanece de pé. Pessoas negras foram 45,8% dos eleitos para as câmaras municipais em 2024 e são 56% da população brasileira, segundo o balanço que circulou no Senado. E o buraco tem endereço: concentra-se no Sul e no Sudeste, enquanto no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste a presença negra chega perto de espelhar quem vive ali. Onde o poder econômico é mais branco, a câmara acompanha.

A conta importa fora do plenário. Vereador é quem aprova o orçamento do bairro, decide o posto de saúde, a linha de ônibus que sai do subúrbio às cinco da manhã. Quando o homem negro chega em número menor do que a população que ele espelha, o bairro negro não perde uma cadeira abstrata, perde a pessoa que sabe de cor onde falta iluminação, onde a viatura entra atirando, onde a creche fechou sem aviso. A sub-representação não mora no gabinete. Ela se paga na fila do posto, no ponto de ônibus, no orçamento aprovado sem ninguém na mesa para lembrar que aquele CEP também existe.

Em outubro de 2026 o país volta às urnas, agora para os governos estaduais e o Congresso, com a mesma regra de financiamento em vigor. Se 2024 servir de aviso, o piso de 30% será tratado outra vez como teto, e a diferença entre o que a lei promete e o que a legenda transfere seguirá cobrada do candidato negro que larga devendo. O piso virou lei. Falta virar chão.