Nos primeiros dias de janeiro de 2026, a Defesa Civil de São Paulo colocou o litoral norte em alerta máximo e acionou o Gabinete de Crise antes de a primeira frente fria descer a serra. A previsão falava em acumulados de até 100 milímetros sobre Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela, os mesmos quatro nomes que abrem qualquer tabela de risco do estado. O aviso chegou por SMS e por sirene. O que ele não responde é por que, três anos depois da maior chuva já medida no Brasil, o aviso continua sendo a obra de contenção que o poder público entrega no prazo.

Em fevereiro de 2023, no fim de semana de carnaval, Bertioga registrou 683 milímetros em 24 horas, o maior volume de um único dia já anotado pelo Cemaden e pelo Inmet. São Sebastião ficou perto disso e contou 635 pontos de deslizamento em um único fim de semana, o de carnaval, com a encosta cedendo sobre quem morava embaixo. Morreram 65 pessoas no litoral norte, 64 apenas em São Sebastião, e 52 delas na Vila Sahy, um bairro que o mapa oficial já classificava como risco muito alto muito antes da lama. A chuva foi recorde. A lista de quem morreu, não: ela era conhecida, endereço por endereço.

O Estado sabe onde vai chover e sabe quem mora embaixo. O que ele adia é a obra, nunca a informação.

Passados três anos, o Governo de São Paulo contabiliza mais de R$ 1 bilhão aplicados em São Sebastião. Entregou 704 moradias definitivas, com aporte de R$ 260,4 milhões, e mantém contenção, drenagem e pavimentação na Vila Sahy, agora com sirene instalada. É investimento real, e não é pouco. Só que os 256 apartamentos prometidos no Topolândia, com previsão para dezembro de 2025, seguiam em obra passada a data, e outras 324 unidades, no Camburi, só têm entrega marcada para maio de 2027. Enquanto a laje não fica pronta, a família fica onde estava. E onde estava é a mesma encosta.

É aqui que a conta desce da sala de reunião para a calçada molhada. Boa parte das famílias que perderam tudo em 2023 vive desde então de auxílio-aluguel, um benefício pensado para dois anos que agora vence sem casa no lugar. O Movimento dos Atingidos por Barragens registrou, na virada de 2026, moradores de volta às áreas de risco e novas chuvas desalojando dezenas em Boiçucanga e Juquehy. O reassentamento definitivo virou fila. E fila, no litoral norte, tem cor.

Tem cor porque o risco tem. O Censo de 2022 deixou cruzar quem mora onde a terra desce. Na cidade de São Paulo, pretos e pardos são 37% da população, mas chegam a 55% de quem vive em área de risco de deslizamento. No distrito do Jardim Helena, 73% negro, há três vezes mais área de risco do que em Pinheiros, onde os negros são 10%. Em Porto Alegre, 40% da população negra mora em zona de enchente ou deslizamento. O litoral norte não escapa do desenho nacional. A Vila Sahy é periferia de casa autoconstruída e trabalho braçal, e quem levanta o muro de arrimo que protege a rua de cima costuma ser o mesmo pedreiro que dorme no barranco onde muro nenhum foi feito.

O rosto dessa madrugada tem endereço e ofício. Ele ergue a laje de contenção que protege a rua de cima e volta para a casa que ninguém conteve. Recebe o SMS às duas da manhã e já está de pé, porque o corpo aprendeu a hora da água antes de o aplicativo aprender. Desce o morro com o colchão nas costas e o filho no braço, e o cadastro de alerta, esse, muitas vezes não chega até ele, porque ocupação sem endereço formal não vira linha no sistema. A sirene toca. A obra fica para depois da próxima chuva. E a próxima chuva, o verão inteiro avisa, tem hora para chegar.