Três homens negros, três apostas sobre o mesmo país, no mesmo terraço.

No terraço de uma casa em Plataforma, bairro operário do subúrbio ferroviário de Salvador, três gerações da mesma família assistiram aos fogos explodirem sobre a Baía de Todos-os-Santos na virada de 2025 para 2026. O bairro foi ocupado por famílias negras desde o começo do século passado, quando trabalhadores portuários e ferroviários fixaram casa ao longo da linha do trem. Donizete, 71, ex-estivador, ficou calado. Rogério, 44, motorista de aplicativo, filmava a queima pelo celular. Cauã, 17, o neto, deixou os fones pendurados no pescoço, concessão ao protocolo da família. Três homens negros, três versões do que o Brasil é, e do que ainda pode ser.

Donizete aprendeu cedo que política era assunto de quem tinha tempo a perder. Passou a vida no cais, carregando o que os navios traziam e levavam, e viu a estiva encolher até virar memória. Para ele, 2026 começa como 1986 terminou, com promessas de normalidade que nunca desceram do centro da cidade até o subúrbio ferroviário. O silêncio dele não é desinteresse. É a economia de quem já gastou esperança demais em discurso de fim de ano.

Rogério apostou na mobilidade como esforço pessoal. Comprou um carro financiado, virou motorista para pagar a parcela e hoje negocia com um algoritmo que nunca se senta à mesa. É o trabalho de muitos homens do bairro. No módulo sobre plataformas digitais da PNAD Contínua, que o IBGE divulgou em outubro de 2025 com dados do terceiro trimestre de 2024, entre os trabalhadores de plataforma do país 41,1% se declaram pardos e 12,7%, pretos, contra 45,1% de brancos. Somados, pretos e pardos são a maioria da categoria. Rogério é o retrato dessa conta: mobilidade real e frágil ao mesmo tempo, sustentada por um carro que pode quebrar, por uma plataforma que muda a régua do preço sem aviso, por uma parcela que encarece toda vez que os juros sobem. Ele dirige por cima de um chão que não é dele.

Cauã conhece o nome de Abdias do Nascimento porque aprendeu na escola, coisa que nenhum dos dois mais velhos teve. Cresceu num país com história afro-brasileira no currículo obrigatório e com um Ministério da Igualdade Racial em funcionamento, e aposta, pela primeira vez em décadas, numa arquitetura institucional que reconhece a sua cor. O otimismo dele é político, não ingênuo. Ele sabe que o CEP ainda é destino, que nascer em Plataforma, em Periperi ou em Fazenda Grande do Retiro reduz a estatística de chegar à universidade, ao emprego com carteira, aos quarenta anos sem uma abordagem policial guardada na memória. O desemprego e a informalidade batem mais forte no homem negro jovem, e isso ele já viu de perto, em primos e vizinhos da mesma idade.

Em outubro, Cauã vota pela primeira vez. Vota num país onde, segundo o balanço do eleitorado de 2024 do Tribunal Superior Eleitoral, os pardos são 53,57% e os pretos, 11,39%, quase dois terços de quem declara a própria cor à Justiça Eleitoral. Essa maioria não se converte em cadeiras. O número de parlamentares negros eleitos segue abaixo do peso desse eleitorado, distância que nenhuma virada de ano fecha sozinha. É contra esse desencontro, entre ser maioria na urna e minoria no plenário, que a aposta do menino se mede.

O carnaval começa em fevereiro, e Salvador vai se oferecer ao mundo como sempre, como festa. O que fica entre a virada e o primeiro arrastão é justamente o que a folia cobre de glitter e ruído: a pergunta, que nenhum dos três formulou em voz alta mas que pairava como a fumaça dos fogos, de para quem exatamente o Brasil que está sendo construído se destina. Donizete já viu promessa demais. Rogério dirige sobre ela. Cauã ainda aposta que desta vez é diferente.

Quando os fogos acabaram e Donizete pediu uma cadeira, o que restou no terraço não foi uma história só. Foram três, em tensão, e nenhuma delas cabe no resumo que o carnaval vai oferecer daqui a seis semanas.