A Voz da Raça · edição inaugural
Primeiro número do órgão oficial da Frente Negra Brasileira, publicado em São Paulo em 18 de março de 1933. Manifesto de imprensa própria, sem patrocinador, sem permissão, sem pedido.
O primeiro número de A Voz da Raça circulou em São Paulo em 18 de março de 1933, impresso em papel de má qualidade, tiragem modesta, distribuição local. E, no entanto, inaugurou um gesto que atravessaria o século: imprensa negra organizada, sem patrocínio branco, sem permissão editorial, sem pedido de licença.
Do editorial de abertura (Arlindo Veiga dos Santos)
“Povo Negro: A força que domina o Brasil é a Raça Negra. Não há outra. Somos os braços que construíram este país, somos o suor das lavouras, somos a música, a dança, o temperamento, o sangue desta Nação. Mas somos, de todos, os últimos a sentar à mesa. E quando nos sentamos, é para servir — não para comer. A Frente Negra Brasileira veio para mudar isso.”
“Este jornal, que hoje vê a luz, não pede nem esmola nem licença. Fala em nome da nossa gente, pela nossa gente, para a nossa gente. Se o branco o lê, bem. Se não o lê, melhor — porque assim saberemos que o escrevemos com honestidade. Não estamos aqui para agradar; estamos aqui para registrar. O que se registra, não se apaga.”
Seções do número inaugural
Além do editorial, o primeiro número traz: (a) Notícias da Frente — atividades da FNB em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Santos; (b) Letras — poesia e prosa de autores negros; (c) Tribuna Livre — cartas de leitores; (d) Educação — coluna sobre a Escola da Frente, que alfabetizava gratuitamente; (e) Página da Mulher — dirigida por mulheres da FNB; (f) Economia — notas sobre trabalho, emprego e carestia.
A Frente Negra Brasileira (FNB, 1931–1937)
Fundada em 16 de setembro de 1931 por Arlindo Veiga dos Santos, José Correia Leite, Isaltino Veiga dos Santos, Justiniano Costa e outros, a FNB chegou a reunir, em seu auge, cerca de 200 mil associados em todo o Brasil, com sedes em mais de 60 cidades. Em 1936, tornou-se Partido da Frente Negra Brasileira, registrando-se formalmente — o que a transformou no primeiro partido político negro da história do país.
A FNB foi extinta em 1937 pelo Decreto-Lei do Estado Novo, que dissolveu todos os partidos. Mas sua rede, seus métodos e sua imprensa plantaram sementes que germinariam no Teatro Experimental do Negro (1944), no I Congresso do Negro Brasileiro (1950) e, décadas depois, no MNU (1978).
Nota editorial: a coleção completa de A Voz da Raça (1933–1937, cerca de 55 edições) está digitalizada e disponível gratuitamente na Hemeroteca Digital Brasileira. Os trechos acima foram transcritos diretamente das reproduções disponíveis no acervo. Pequenas atualizações ortográficas foram aplicadas conforme norma da Academia Brasileira de Letras vigente.
Fontes e referências
- Hemeroteca Digital Brasileira · A Voz da Raça (1933–1937)
- Frente Negra Brasileira · Wikipedia
- DOMINGUES, Petrônio · “Uma História Não-contada: Negro, Racismo e Branqueamento em São Paulo no Pós-Abolição” (2004)
- BARBOSA, Márcio · “Frente Negra Brasileira” · Quilombhoje (1998)
- FERNANDES, Florestan · “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” · Dominus (1964)