Compromisso da Irmandade de N.S. do Rosário dos Pretos
Estatuto fundador de uma das mais antigas irmandades negras do Brasil, aprovado por alvará régio em 1685. Código de admissão, assistência mútua e liberdade patrocinada.
A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, estabelecida na antiga cidade de Salvador, é uma das mais longevas instituições negras do Brasil. Seu Compromisso — equivalente a um estatuto civil — codificou, ainda no século XVII, princípios de auto-organização, assistência mútua e libertação patrocinada que antecipariam em séculos a filantropia afrocooperativa moderna.
O documento original (recomposto em sucessivas versões, com alterações aprovadas pela Mesa da Consciência e Ordens do reino) estabelece, em síntese:
Da admissão
“Poderão ser recebidos por irmãos todos os pretos, assim os de nação como os crioulos, de qualquer ofício ou condição, uma vez que mostrem boa fama e honesto procedimento.”
O Compromisso registra, portanto, uma comunidade aberta a africanos livres e libertos, escravizados com licença de seus senhores, e crioulos (nascidos na América). A condição de admissão não era a liberdade jurídica, mas a boa fama — critério comunitário, não patrimonial.
Dos cargos
A hierarquia interna reproduzia a estrutura das irmandades portuguesas do período: Juiz (presidência), Escrivão, Procurador, Tesoureiro, Mordomos, com mandatos anuais, eleições em assembleia e prestação de contas documentada.
Da assistência
O Compromisso obrigava a irmandade a: (a) acompanhar o irmão enfermo; (b) custear o enterro honroso — caixão, missas, sepultura; (c) rezar missas pelos defuntos; (d) amparar viúvas e órfãos de irmãos; (e) auxiliar os irmãos presos ou em desamparo.
Das alforrias
A cláusula mais notável, sob a perspectiva contemporânea, refere-se ao fundo para compra de cartas de alforria. Parte das esmolas, doações testamentárias e rendimentos de imóveis da irmandade era aplicada, com prioridade estabelecida pela Mesa, em alforriar irmãos escravizados — crianças e gestantes tinham precedência, seguidos por idosos. Estima-se, a partir de registros fragmentários, que a Irmandade do Rosário dos Pretos de Salvador patrocinou milhares de alforrias entre 1685 e a Lei Áurea de 1888.
Da festa e do culto
A Festa de Nossa Senhora do Rosário — com coroação simbólica de Rei e Rainha Congo, cortejos e danças rituais — era obrigatória e constituía afirmação pública da organização. O Compromisso detalha ofertas, indumentárias, música e protocolo litúrgico.
Nota editorial: o texto integral do Compromisso de 1685 encontra-se disperso em publicações acadêmicas e edições facsimilares. As passagens entre aspas acima são citações de trechos recompostos a partir das edições publicadas no Arquivo do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO/UFBA) e em Negros, Estrangeiros: os Escravos Libertos e sua Volta à África (Manuela Carneiro da Cunha, 1985). Para a versão integral, recomendamos consulta ao arquivo da Cúria Metropolitana de Salvador.
Fontes e referências
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Pelourinho · Wikipedia
- Irmandade do Rosário dos Pretos · sítio oficial
- REIS, João José · “A Morte é uma Festa” · Companhia das Letras (1991)
- MULVEY, Patricia · “The Black Lay Brotherhoods of Colonial Brazil” (1980) · Tese CUNY
- CEAO/UFBA · Centro de Estudos Afro-Orientais · arquivo documental