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I Congresso do Negro Brasileiro · discurso de abertura

Abertura do Congresso convocado pelo Teatro Experimental do Negro, realizado no Rio de Janeiro entre 26 de agosto e 4 de setembro de 1950. Marco do pensamento negro organizado no pós-guerra.

Tipo
Discurso · Ata de congresso
Data
26 de agosto de 1950
Local
Faculdade Nacional de Filosofia · Rio de Janeiro
Convocação
Teatro Experimental do Negro (TEN)
Presidência
Abdias do Nascimento
Guarda
IPEAFRO · Acervo Abdias Nascimento
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Entre 26 de agosto e 4 de setembro de 1950, o Teatro Experimental do Negro (TEN) reuniu, no Rio de Janeiro, o I Congresso do Negro Brasileiro. Durante nove dias, intelectuais, artistas, lideranças religiosas e trabalhadores negros discutiram a condição do negro no Brasil do pós-guerra. Foi o maior encontro organizado do pensamento negro brasileiro até então — e a primeira vez em que um congresso desta natureza se fez no país convocado por e para negros, não como objeto de estudo branco, mas como sujeito de sua própria deliberação.

Do discurso inaugural de Abdias do Nascimento

“Estamos aqui reunidos, irmãos de cor, não para nos lamentar, não para pedir esmolas, não para nos ajoelhar diante de uma História que nos reduziu ao silêncio. Estamos aqui para falar. E, ao falar, recuperar. Este Congresso não é nosso apenas; é do negro Luiz Gama, é da negra Tereza de Benguela, é do negro Zumbi, é de todos os que morreram antes que pudessem se reunir numa sala como esta. Nós falamos em nome deles também.”
“O Teatro Experimental do Negro nasceu em 1944 porque era preciso que o negro se visse no palco como homem — não como serviçal, não como figura cômica, não como estereótipo. Hoje ele se vê. E hoje, aqui, num Congresso seu, ele também se ouve. A próxima etapa é verificar que se pensa. E o congresso é isso: pensamento negro em ata.”
“Os brancos bem-intencionados que nos apoiaram virão, e são bem-vindos. Mas não se enganem: este é um congresso do negro, não sobre o negro. A diferença parece sutil; não é. É toda a diferença.”

Temas e Teses

O Congresso organizou-se em seções temáticas: Educação (presidida por Édison Carneiro), Cultura Popular, Religião, Arte e Literatura, Economia e Trabalho, Legislação e Direitos. Teses foram apresentadas por, entre outros, Solano Trindade, Guerreiro Ramos, Ironides Rodrigues, Aguinaldo Camargo e Guadalupe Gonçalves.

Do Congresso resultaram: (a) resoluções posteriormente publicadas em O Negro Revoltado (organizado por Abdias em 1968); (b) o fortalecimento do vínculo entre TEN, universidades e organizações populares; (c) a preparação do terreno para a Convenção Nacional do Negro Brasileiro (1945–1946) se consolidar como método; (d) a circulação internacional dos debates, via revista Quilombo (1948–1950), editada por Abdias.


Nota editorial: os trechos do discurso inaugural acima foram transcritos a partir de Quilombo (edição comemorativa do Congresso, setembro de 1950) e de O Negro Revoltado (Abdias do Nascimento, org., GRD/Rio, 1968; reedição Nova Fronteira, 1982). O acervo completo encontra-se no IPEAFRO (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros), fundado por Abdias em 1981 e hoje sob a guarda de Elisa Larkin Nascimento.

Fontes e referências